Guillermo del Toro e Hellboy II (2008)

Normalmente olhamos para sequelas como cash-grabs desenvergonhados, segundas refeições que perderam o sabor singular do prato principal. Por isso é admirável quando se vê uma sequela largamente melhor que o filme original, que permite uma continuação do seu legado sem se esquecer de inovar.

Tal é o génio de Guillermo del Toro.

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Ron Perlman retorna como a personagem principal de Hellboy II – O Exército Dourado (2008), dedicado mais que ninguém a trazê-la ao ecrã. As horas de maquilhagem por si só devem ter sido excruciantes; mas é esse blood, sweat and tears da parte de Perlman que personifica a figura heróica de Hellboy. Não basta o carisma, é necessária uma impenitente devoção ao ofício.

Os vilões do primeiro Hellboy (2004) sofreram com a adaptação da página para tela: nazis desenxabidos com um propósito genericamente nefasto. Não mais presa a estas convenções, a sequela introduz a mitologia rebuscada que é tão característica ao mundo imaginativo de del Toro. Há uma maior ambição na construção de sets; a galeria de monstros expande-se para incluir dragões bebés, golems, anjos da morte, elfos negros e o titular exército dourado. A caixa de areia à disposição de del Toro é muito maior, e o cineasta aproveita-a ao máximo.

Certas sequências animadas de backstory conferem um certo tom de conto de fadas à narrativa, engrandecido pela presença de John Hurt na cena inicial. Hellboy II desapega-se da estrutura de banda desenhada a que foi escravo anteriormente para explorar outros territórios; nota-se a influência de Labirinto do Fauno (2006) um pouco por todo o filme.

Voltar às suas raízes latinas rejuvenesceu a capacidade criativa do realizador: as cores são mais vivas, a tensão emocional mais pesada e verosímil (*), e a ação é mais vibrante e energética. O design das criaturas evolui do CGI ultrapassado do primeiro capítulo para construções físicas arrebatadoras, assim como jogos de luz aliados de efeitos especiais que animam os diferentes monstros de Hellboy II.

(*) Infelizmente, o romance insípido entre Liz Sherman (Selma Blair) e Red não é esquecido, mas o seu tempo de antena é bastante reduzido. Blair não é propriamente cativante no papel, e apesar de Perlman tentar o seu melhor, as cenas entre os dois parecem sempre apáticas e artificiais. Ambos mostram-se cientes da gritante falta de química no suposto romance, e representam como dois atores resignados ao guião. 

O crescimento criativo e qualitativo do primeiro filme para o segundo é formidável, mas não chega sem o seu quê de problemas. A arremetida incessante de sequência de ação atrás de sequência de ação esgota o espetador, não só porque provoca um pacing deficiente da narrativa, mas também porque exige um incremento progressivo da violência e da brutalidade das batalhas que nem sempre funciona.

Este ritmo vacila principalmente nos momentos mais íntimos, como quando Hellboy e Abe Sapien (Doug Jones, irrepreensível) se embebedam juntos. Esta cena tem um tom jovial, quase infantil até, que entra em choque com a fúria impetuosa da cena de ação precedente, e do combate intenso que se segue. As personagens não são propriamente aprofundadas com esta pausa, como se existisse apenas para alongar a duração do filme com comic-relief mal justificada.

Apesar disso, Hellboy II é o blockbuster mais sólido de Guillermo del Toro. É o que tem as personagens mais cativantes (em parte graças aos atores fantásticos que as encarnam), as criaturas mais originais, e o clímax mais rejubilante da filmografia do cineasta mexicano. Expressionismo de pipoca, com muita adrenalina à mistura.

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