10 Filmes de Terror com excelente atmosfera

Muitos dos filmes modernos de terror dependem de um modus operandis bastante manipulativo, de um ponto de vista cinemático: jump scares. Não há nada de intrinsecamente errado com esta táctica, até porque normalmente são a parte mais memorável de um filme que de outro modo é completamente obsoleto. Mas a verdade é que a dependência nesta técnica fácil de usar mas complicada de dominar tem anulado qualquer outra forma de criar terror.

Um desses métodos moribundos de comunicar este tipo de sentimentos é a atmosfera. Criar atmosfera e ambiência não é fácil: é preciso o número correto de pistas visuais e cinematografia inteligente para conjurar a quantidade correta de pavor e aversão. A trilha sonora não pode sobrecarregar o espectador: tem que complementar a ação, isto é, sugerir em vez de gritar e antecipar apaticamente aquilo que a audiência deve sentir. Os atores também devem ser carismáticos de modo a transmitir as emoções através do ecrã; o uso da prototípica loura de seios gigantes a gritar os seus pulmões para fora enquanto o resto das personagens morrem à sua volta é risível, não atemorizador.

Estas são algumas pedras basilares para a criação de uma atmosfera imersiva e envolvente, mas não as únicas. Tais técnicas são maioritariamente praticadas por mestres do cinema ou encontradas em filmes underground das mais variadas eras do cinema. Assim sendo, estes filmes abrangem mais do que terror puro não refreado: alguns misturam drama, ficção científica e outros géneros para criar um ambiente único. É este tipo de trabalho e atenção às peculiaridades do cinema que os distinguem dos restantes.

1. Alien – Ridley Scott (1979)

6O segundo filme do prolífico Ridley Scott é uma autêntica masterclass em terror impregnado de suspense. Desde a cena inicial que nos guia pela nave espacial desolada, que imediatamente define o tom medonho do filme, às wide shots do planeta alienígena e à revelação do alien em si, esta obra prima de 1979 é um dos filmes com a atmosfera mais aterrorizadora e claustrofóbica que conheço.

É também um dos filmes de ficção científica mais delicadamente trabalhados, e o verdadeiro paradigma de um monster flick. Força constantemente a evolução do design da criatura à medida que a narrativa progride, de modo que o espetador nunca sabe bem como é que ele se parece ou o que esperar a qualquer momento. Explora, não de forma propriamente subtil mas também não gritante, temas como feminismo (o sexo, não o movimento) e maternais, como notado pelas imagens fálicas recorrentes e as conotações sexuais constantes.

Este tipo de subtexto cria um tom envolvente e taciturno, que diferencia Alien de outros filmes semelhantes que simplesmente não atingem o seu nível quase operático.

2. Antichrist – Lars von Trier (2009)

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Mesmo após o prólogo perfeitamente desolador, filmado a preto e branco e num constante slow-mo (uma homenagem não-tão-subtil a Don’t Look Now do Roeg?), Antichrist continua a transmitir o seu derrotismo implacável através das cores acinzentadas, paredes húmidas, quartos acastanhados e relva deslavada.

Com um número desconcertante de jump cuts, e claras violações da “regra” dos 180º, a câmara rapidamente cria um sentimento geral de mal-estar e desconforto. Ao quebrar a continuidade, Trier torna obstinada a sua intenção de não deixar o espectador adivinhar o que se segue. A banda sonora, esporádica e industrial, reforça tal noção: em Antichrist, algo tão simples como caminhar sobre a relva torna-se desorientador e aterrorizador.

O que começa como uma exploração heterodoxa de mágoa e perda, transforma-se numa luta primal e sadomasoquista entre os sexos (onde uns vêm misoginia, outros vêm feminismo), em que os dois atores principais (protagonizados por Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg) lidam com infanticídio. É um dos filmes mais polarizantes dos últimos anos, repleto de imagens assombrosas e um deleite visual para quem gosta de semiótica.

3. Cat People – Jacques Tourneur (1942)

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Jacques Tourneur é um mestre negligenciado do terror através do suspense e atmosfera. O seu talento empresta-se bem aos constrangimentos orçamentais em que muitos dos seus filmes eram produzidos, escondendo-os através de set-ups de iluminação evocadores de penumbra, e fundos urbanos com sombras abundantes. Cat People é um filme perfeitamente representativo da sua oeuvre, empachado de subtexto e torções narrativos que nos deixam em expectativa de cena para cena.

O filme é sobre a vida de uma imigrante sérvia chamada Irena Dubrovna (actriz francesa Simone Simon), que teme tornar-se numa “mulher gato”, medo impingido pelas tradições, fábulas e histórias folclóricas do seu país de origem. Este medo origina do seu desejo de ser íntima com o seu marido, portanto gira à volta da sexualidade e seus taboos associados, assim como a dicotomia entre o ser natural/desnatural, benigno/profano.

Tem das imagens mais sugestivas da filmografia escondida de Tourneur, assim como dos sustos mais bem ensinados da época. Cat People é um magnífico filme noir de terror.

4. Eraserhead – David Lynch (1977)

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Eraserhead é a longa-metragem de estreia de David Lynch. Um dos primeiros filmes do subgénero body horror (em que os extremos viscerais da anatomia humana são explorados), este debut tem as suas raízes no filme noir, que estica até aos seus limites estilísticos.

Após Henry Spencer (o fantástico Jack Nance, com a melhor impressão de cabelo lynchiano) descobrir que a sua noiva está grávida, encontra dificuldades em se adaptar à noção de paternidade. A era em que o filme se situa é intencionalmente ambígua, localizando-se num panorama industrial quase apocalíptico que pode bem ser o passado, presente ou o futuro, tornando a narrativa, assim, intemporal.

O maior problema para Henry, no entanto, é que o seu bebé é completa e grosseiramente deformado. É a mais tenebrosa metáfora para gravidez não desejada e as aflições de se ser pai no geral, mas a representação gráfica da deformidade da criança é a impressão que mais perdura na mente do espectador.

A cinematografia a preto e branco, a banda sonora surreal (e o sound design fantástico), ambiente alienígena e sequências de sonho de uma mente debilitada que são tão características do trabalho de Lynch juntam-se para criar uma atmosfera profundamente inquietante que ainda é, hoje em dia, inesquecível.

5. Kill List – Ben Wheatley (2011)

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Dentro de um par de anos, Ben Wheatley vai ser agraciado como um dos realizadores mais brilhantes do Reino Unido. Mesmo que tal não se confirme e passe o resto da sua vida como um ícone de culto e realizador underground, já tornou única a sua veia inflexível de fazer filmes que aspiram a obras resolutas e inabaláveis.

Kill List é o seu segundo filme, acerca de um soldado britânico que volta a casa após uma missão perturbadora em Kiev que nunca chega a ser revelada de forma clara. Depois de umas desavenças com a sua mulher, devido aos seus problemas financeiros, retorna ao seu trabalho antigo de hitman.

O que se segue é algo extremamente não-linear e estranho para quem está acostumado a filmes de género clássicos, embora o filme detenha uma sensibilidade quase kitchen-sink que vai ao encontro das influências britânicas de Ben Wheatley. Quanto menos souberem em relação ao enredo, melhor, portando deixo-vos apenas com a sugestão.

6. Onibaba – Kaneto Shindô (1964)

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Onibaba é um dos percursores da corrente erótica dos filmes de terror. Uma das melhores obras de Kaneto Shindô, é uma tour de force de personagens femininas complexas numa época em que tal era difícil de encontrar em ficção visual. As mulheres são caracterizadas pelos seus medos e necessidades profundas, completamente tridimensionais, em que batalham pela sua sexualidade.

Localizado no Japão, algures em meados do século XIV, Onibaba é um tenebroso recontar de um conto budista acerca dos homónimos demónios. As duas personagens principais sobrevivem ao vender os espólios de soldados que matam ao apanhá-los desprevenidos e enfraquecidos da guerra. Vivem num baldio pantanoso sob um tecto de palha, rodeadas por espigas gigantes. As canas de milho são filmadas quase majestosamente; o realizador mostra-nas de tempo a tempo, infinitamente dançando como se a acentuar a passagem do tempo e, quase de forma paradoxa, a atemporalidade da história.

É um filme de terror psico-sexual; um retrato expressionista de pobreza oprimente.

7. Possession – Andrzej Żuławski (1981)

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Este é o derradeiro filme anti-casamento, ou anti-relações em geral. É normalmente essa a logline associada à obra prima ignorada de Żuławski, que trata das mais básicas emoções humanas a um nível intimamente primal e violento. A temática é abrasiva: necessidades e desejos humanos, a eterna divisória entre o sexo masculino e feminino, ou mesmo entre pessoa amada e amante. O terror do filme origina nas relações interpessoais das personagens, mais do que o gore e sangue da última metade da narrativa.

Mark (protagonizado por Sam Neill) chega a casa para encontrar a sua mulher Anna (Isabelle Adjani, na sua fase mais deslumbrante no que é possivelmente o seu melhor papel de sempre) a traí-lo com outro homem. Mark tem, então, uma quebra nervosa, que nos é mostrada através da sua clausura num apartamento nojento, como se estivesse a desintoxicar. Mas de quê? De amor? Ou está a livrar-se da sua pele mais vulnerável e exposta de modo a tornar-se alguém diferente, mais parecido com o homem que Anna pode querer?

Possession é um filme brilhante, embora algo complexo. Com uma cinematografia irreplicável, pontuada por movimentos de câmara circulares e enervantes, um guião desconcertante e original e personagens bem definidas, tornou-se num clássico negligenciado mesmo pelos mais cultistas do cinema. A verdade é que nunca podemos realmente possuir ninguém, independentemente do quão estejamos dispostos a sermos possuídos por esse alguém.

8. Repulsion – Roman Polanski (1965)

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Repulsion é o primeiro filme da Trilogia do Apartamento de Roman Polanski (os outros dois são Rosemary’s Baby The Tenant). São os três thrillers de terror em que o espaço envolvente é maioritariamente um apartamento, mas Repulsion é certamente o mais atmosférico.

Carol (Catherine Deneuve, quase totalmente silenciosa ao longo do filme) sente uma aversão irremediável em relação ao sexo masculino, tornando o seu estado de mente progressivamente decadente e paranóico. Quando se auto-confina à solidão opressiva do seu apartamento, é confrontada com os seus maiores medos que se desdobram em desejos.

Com uma banda sonora de jazz surrealista e imagens de corredores estreitos que se cimentam na mente do espectador, este é um dos filmes mais complexos e recompensadores de Polanski.

9. Suspiria – Dario Argento (1977)

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Suspiria é um altamente estilizado e subversivo filme de terror. É acerca de ballet mas não no espectro envisionado por Darren Aronofsky em Black Swan: tem muito menos dança e sexo lésbico. Por outro lado, o seu uso de lentes anamórficas, cores primárias vibrantes e a louca, transcendente e inesquecível trilha sonora (da banda de rock progressivo Goblin, quase se torna uma personagem no próprio filme) convergem num ambiente de pesadelo psicadélico do qual não conseguimos desligar.

Suzy Bannion (Jessica Harper) voa para Munique, Alemanha, para ter as melhores aulas de ballet do mundo. Na noite da sua chegada ocorre um sangrento homicídio na cena mais icónica do filme. Daí, todo o enredo rebenta numa espiral descontrolada: infestações de insectos,  grupos de bruxas, festas de pijamas e controlo mental; um monte de acontecimentos tresloucados que são tão outré mas simultaneamente encaixam na narrativa que nos é apresentada, acompanhados dos floreados visuais que são marcas do trabalho de Dario Argento.

Apesar de um argumento fraco e de personagens finas como o papel, Suspiria respira uma atmosfera caleidoscópica de um mundo visualmente arrebatador que prende o espectador através do seu magnetismo técnico e sonoro.

10. The Shining – Stanley Kubrick (1980)

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Praticamente todos os filmes do visionário Stanley Kubrick são masterclasses de como criar, com sucesso, uma atmosfera verosímil em cinema. A atenção ao detalhe quase infinita, a simetria subtil, as bandas sonoras icónicas, os movimentos de câmara cautelosamente planeados e ensaiados, as performances bem conseguidas do cast sempre impecável; tudo amontoa a uma noção perfeita de ambiência e atmosfera.

É graças a isso (embora não apenas) que os seus filmes clicam com as audiências décadas após a sua estreia: são tão bem construídos que a barreira invisível entre o ecrã e o espectador se dissolve e este é transportado para o meio do filme sem reservas.

The Shining tem uma das cenas iniciais mais discretas do cinema: através de uma simples viagem de carro silenciosa, estabelece o tom e local isolado do filme, capturando uma instantânea sensação de pavor.

(1) Parte deste artigo foi inicialmente escrito por mim, em inglês, para o site Taste of Cinema.

(2) A lista está por ordem alfabética 😉

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