Guillermo del Toro e O Labirinto do Fauno (2006)

O que distingue Guillermo del Toro da resma de realizadores de terror mileniais, é o humanismo intrínseco às histórias que nos conta. Ele desenvolve personagens realísticas em mundos de fantasia, com um background indubitavelmente terráqueo, e cria os monstros mais horripilantes para assolar a nossa psique. Mais do que isso, confere-lhes uma carga de misticismo que ultrapassa o simples terror: estas criaturas, de certo modo, também são humanas.

Em Labirinto do Fauno, a indisputada chef d’oeuvre do cineasta mexicano, seguimos Ofelia, uma jovem rapariga órfã de pai que é atirada para a mais desconfortável das situações. A sua mãe está grávida de Vidal, um cruel capitão da Falange espanhola, sob o regime de Franco, incumbido de derrotar as forças anti-fascistas que infestam o país. Este mundo desabrigado de Ofelia é rompido por uma horda de criaturas mágicas, como fadas, sapos gigantes ou o titular fauno, envolvidos numa demanda intemporal, à procura da princesa desaparecida do seu reino.

A justaposição da guerra civil espanhola com o a imaginação fértil e infantil de Guillermo del Toro é o que eleva O Labirinto do Fauno à sua presente condição de obra-prima.

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Mas não se enganem com as fadas: o filme é violento, com litros de sangue e uma quantidade considerável de encarnado gore de revoltar o estômago. Há uma cena em que Vidal esmaga à cacetada o nariz de um comum pastor só por ter questionado as suas ações, e a forma como del Toro se aproxima da violência é agoniante. O realizador não quebra o take, obrigando o espetador a assistir à brutalidade das ações daquele capitão espanhol, supostamente portador e defensor dos bons costumes mesmo em tempo de guerra.

De facto, a personagem de Vidal é o elemento nuclear de toda a narrativa de O Labirinto do Fauno. A sua vil existência implica a questão desconfortável de não sabermos quem é pior, ele ou os monstros da história. Já falei de como todos os filmes de del Toro lidam de alguma maneira com os temas de degredo e excesso humano. Os seus vilões procuram algo que a sua condição humana não lhes satisfaz, seja ela avareza, a lascívia ou a gula.

O realizador deturpa um pouco os sete pecados capitais cristãos, retirando-lhes a religiosidade que lhes é inerente para nos falar do Homem e da sua corrupção moral. Cria, assim, um paralelo entre os monstros e os vilões oh-tão-humanos das suas histórias.

A personagem do Fauno, por exemplo, é tão amável quanto desonesta, e embora essa falsa honestidade se prove ultimamente parte da progressão da personagem de Ofelia, também lhe atribui um quê de humanidade. Ou a figura do Homem Pálido, visto na imagem acima, que habita numa sala luxuosa, sentado à cabeça de uma mesa repleta com os mais variados alimentos, e uma montanha de sapatos de criança a um canto. É dito a Ofelia que não deve comer nada daquela mesa, mas ela fá-lo na mesma, porque é só humana.

O Labirinto do Fauno, mais que um sucessor espiritual à outra deambulação pela guerra civil espanhola de del Toro, é um autêntica fábula acerca do triunfo do espírito humano face às mais horrendas das situações. Apesar de se ver isolada do mundo, com a mãe moribunda e um padrasto desumano, Ofelia continua a superar as adversidades no mundo fantástico do labirinto, destemida mas inocente.

Del Toro criou um magnum opus cinemático que bebe das suas influências góticas e folclóricas, de conto de lareira pastoral, imbuindo-as de um realismo violento, deprimente, que é ao mesmo tempo uma ameaça e um encanto. Conta-nos uma história triste, mas de uma beleza ímpar como só as melhores ousam alcançar.

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