Hollywood é uma ilusão em Starry Eyes

A protagonista de Starry Eyes é Sarah (Alex Essoe), uma jovem e optimista atriz que descobre as sinistras origens da elite de Hollywood e entra num acordo mortal em troca de fama e fortuna.

A sinopse pode parecer a de qualquer outro filme de terror com correntes satânicas e subtexto crítico à cultura de celebridades em Los Angeles, mas Starry Eyes é um dos melhores filmes de body-horror a estrear nos últimos anos. Sarah, para singrar como atriz, tem que se vender a Hollywood de corpo e alma, nomeadamente de corpo, e o processo lento e brutal com que o faz traz um dos clímax mais sangrentos e nauseantes de sempre.

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Durante a primeira hora somos introduzidos a Sarah e a uma corrente de personagens adolescentes que primam pela atitude desagradável característica à espécie, num arrastar lento mas meticuloso de cenas que constroem o mundo degenerado de Starry Eyes. Nem sempre se entende o que está a acontecer no ecrã, e aquilo que se percebe não chega a ser propriamente interessante.

Sequências como a primeira sessão de casting de Sarah são cativantes em termos puramente imagéticos, já que não temos ideia (literal – a metáfora visual é perceptível mas ainda assim misteriosa) do que se está a passar. Os flashes da câmara cegam Sarah da mesma maneira que nos cegam a nós, e Alex Essoe deixa transparecer as emoções contraditórias que a percorrem nesse momento com especial nuance.

Essoe carrega o filme nos ombros, com uma prestação tão memorável quanto a de Jamie Lee Curtis no primeiro Halloween (1978), tornando o seu declínio mental tão cativante quanto o de Naomi Watts em Mulholland Drive (2001).

O filme em si tem um tom muito lynchiano (os realizadores Kevin Kölsch e Dennis Widmyer são sem dúvida fãs do trabalho de Lynch), e no entanto é impossível não reparar na influência de outro David, o Cronenberg, especialmente durante as sequências de terror corporal que se vão sucedendo. Sarah perde unhas e cabelo quase do mesmo modo que Seth Brundle se transforma na titular mosca em The Fly (1986), ambos os corpos degenerados pela sua própria húbris. Kölsch e Widmyer carregam as suas influências na manga, mas acabam por construir algo original com elas.

Do mesmo modo, a trilha sonora do filme (inspirada nas soundtracks dos anos 80) alimenta o terror psicológico sofrido pela personagem principal, ao mesmo tempo que cobre o espetador com uma atmosfera invulgar e arrepiante.

Starry Eyes tem os seus defeitos, como o desenrolar dolorosamente lento da narrativa, mas o final é tão potente quanto brutal, destruindo por completo o corpo idealizado por Hollywood de uma forma sangrenta e excessiva (como o próprio ideal). Acaba por se tornar num típico slasher, mas sem perder a inteligência temática e emocional que muitos nem se lembram de ter.

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