O Final Romântico de Hannibal

Quem diria? No meio de enguias assassinas, tripas caídas, lábios rebentados e faces carbonizadas , Hannibal ainda encontrou tempo para o amor. Não aquele oriundo de orgias metafísicas, ou de sexo lésbico sensual e caleidoscópico, mas o de letra A maiúscula, entre duas pessoas sem interesse carnal uma na outra, ainda que com uma indiscutível ligação emocional.

O teor homoerótico da relação entre o nosso bom doutor canibal e o psicopata incipiente Will Graham sempre correu no subtexto da série, desde as consultas psicológicas da primeira temporada até à penetração bem física do cutelo de Hannibal em Mizumono. Mesmo aí a sua relação era como uma palavra não pronunciada, uma verdade aquiescida sem real importância. Mas Hannibal, a série, sempre primou por subverter as nossas expectativas, e por isso decidiu enfiar a navalha profunda nas nossas espinhas e torcê-la com mestria.

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É o raro caso de uma adaptação que se podia ter limitado à narrativa sólida do material de origem, mas que preferiu tornar-se num best-of daquilo que constituiu o sucesso dos livros e dos filmes anteriores. Mudou o sexo de algumas personagens (Freddie Lounds), eliminou outras (por questões de direitos de autor, Clarice Starling não apareceu), e aumentou consideravelmente a importância de Will Graham, que se tornou no núcleo emocional da série.

Will, de certo modo, é Hannibal, e Hannibal é Will: os dois revêm-se um no outro como dois lados de uma moeda incompleta; procuram-se mutuamente como o par inseparável de uma comédia romântica. O “puxa-empurra” da sua relação foi o que motivou muitos dos torções narrativos da série, e aquilo que lhes deu peso dramático. Will, ao finalmente assassinar Francis Dolarhyde em defesa de Hannibal, encerra o seu destino como eterno companheiro do psicólogo virado psicopata (ou será o inverso?), e os dois consumam a sua conexão num abraço mortífero que encapsula a sua relação perniciosa.

Nada disto teria resultado se não fosse a realização “artsy-fartsy” de todos os 39 episódios de Hannibal, que a transforma mais numa peça épica de ficção-científica do que num qualquer drama policial. O lado de investigação criminal foi desaparecendo ao longo das temporadas, até ser completamente suprimido nesta terceira, dando lugar a uma exploração art-house da mente humana, da violência, do amor, e das complexas relações familiares que uniam as várias personagens da série.

O final, como tudo o resto, foi brutal e operático, incorrigivelmente moribundo mas sem esquecer aquela réstia de humor negro que sempre acompanhou a viagem de Will Graham. Hannibal encontrou a beleza no grotesco, seja através das imagens chocantes mas coloridas, ou através da trilha sonora que foda-se se não é a melhor trilha sonora que alguma vez foi composta para televisão. Silêncio reinava a cena quando silêncio era pedido, mas fora isso o arranjo tenebroso de cordas e percussão nunca parou de me arrepiar.

Choro muito o facto da série ter sido abruptamente cancelada, mas este final foi bem sucedido em atar todas as pontas soltas, e fora uma ou outra personagem com uma progressão atrapalhada (Jack Crawford pensa-se Deus e não há seguimento?), não sinto necessidade de voltar a este mundo extremamente perturbado e violento.

Sem exageros: assistir a Hannibal é uma experiência sem paralelo (parabéns à AXN por a transmitir atempadamente ao contrário do que costumam fazer com séries menos pop), um autêntico deleite de arregalar os olhos seja por reverência ou por medo. Esta terceira temporada pode ter-se perdido um pouco na sua narrativa visual, tornando-se repetitiva mesmo ao quebrar a estrutura tradicional dos 13 episódios; mas esse componente artístico foi o que a tornou especial para mim, e o que a separou da maré interminável de outras séries excelentes que povoam o nosso imaginário audiovisual.

Ainda estou a sofrer com este final, de coração apertado por tão cedo não voltar a ter o Mads Mikkelsen no meu ecrã. Mas não conseguiria adivinhar uma melhor forma de encerrar a série que tem redefinido, mais do que qualquer outra, as possibilidades da televisão. E agora desculpem-me porque vou ver tudo de novo.

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