Guillermo del Toro e Hellboy (2004)

Um demónio conjurado por uma seita nazi cresce para se tornar num autêntico super-herói que luta contra as forças do mal. Leiam de novo esta sinopse. Dá para rir, não é? Hoje em dia quase que levamos tudo o que tenha a palavra nazi para a galhofa, e adicionar forças demoníacas à equação parece tornar tudo tão mais hilariante.

Como é possível, então, que Guillermo del Toro tenha construído um filme que não só leva a sua premissa a sério como se diverte ao fazê-lo?

A razão recai no entendimento e na reverência que o cineasta mexicano tem pelo material de origem (Hellboy é uma adaptação da homónima banda-desenhada da Dark Horse Comics), e na forma como corresponde às expectativas da sua audiência. A melhor forma de tornar um filme bem sucedido é a de conhecer o tipo de pessoas que o vão ver, e saber aquilo que elas querem. A partir do momento que esses desejos são concretizados, tudo é mais fácil.

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De certo que ter um ator principal como Ron Perlman no papel de Hellboy não magoa, e a verdade é que Perlman entrega-se de corpo e alma ao monstro vermelho. Enverga as cores e apetrechos do filho do inferno com uma vontade enorme que conferem o carisma necessário para tornar a personagem verosímil com o mundo fantástico que Guillermo del Toro cria.

Começa-se a notar este interesse particular do cineasta mexicano, que é o de retratar histórias, passadas ou presentes, sob o contexto de uma guerra: neste caso a segunda que palmeou o globo, mas também a guerra civil espanhola em A Espinha do Diabo. Enrola as narrativas com um cariz pessoal, que aprofunda de imediato as personagens dos seus filmes.

A mescla deste subtexto real com o terror oriundo de Lovecraft é o que eleva Hellboy da sua premissa popular para um nível mais elevado de fantasia com qualidade. Infelizmente, a seita nazi torna-se uma paródia de si mesma lá para o meio do filme, tornando a ameaça principal uma autêntica punchline que desaba qualquer tensão que pudesse ser ordenhada do enredo. Karel Roden acaba por ser um vilão medíocre, desinteressante por querer criar um apocalipse que sabemos nunca chegar.

No entanto, as sequências de ação são irrepreensíveis: del Toro aproveita ao máximo o orçamento avultado para o CGI das criaturas (cuja idade já começa a pesar, onze anos depois), mas também faz uso da sua imaginação fértil para criar set-pieces interessantes que passam da simples pancada para uma boa construção dramática. A cena dos esgotos, em particular, é fabulosa, reunindo todas as personagens principais contra um sem-número de bestas desconhecidas.

O humor é algo infantil, e as personagens secundárias não passam de caricaturas quando comparadas com Hellboy, que mesmo assim passa pelo cartoon devido ao seu amor non sequitur por gatos e barras de chocolate. As claras excepções são o bom Dr. Bruttenholm e Abe Sapien. John Hurt e Doug Jones, respetivamente, trazem uma gravitas indescritível aos papeis, que passa do cómico ao dramático num piscar de olhos sem estragar o peso da narrativa. Selma Blair como Liz Sherman, por outro lado, já roça no irritante. A atriz parece eternamente aborrecida, quase contrariada.

Ainda assim, Hellboy prima por alcançar um patamar sólido através da sua premissa menos feliz. Del Toro sobe a fasquia em relação às experiências mais ou menos falhadas sob o sistema de estúdio de Hollywood (Mimic e Blade II), e a convergência da sua sensibilidade visual com cenas de ação cinéticas tornam o filme melhor do que aquilo que devia ser.

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