Black Mass é uma Autêntica Mess

Sabem quando estão numa conversa descontraída com um grupo de amigos e dizem que “os chineses são todos parecidos”? Há sempre aquele alguém que responde “para eles, nós também somos todos iguais”. Ora, como ignorante pessoa branca que sou, nunca senti que tal fosse verdade.

Até que vi Black Mass.

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O filme mais parece uma passerelle de atores all-american caucasianos do que uma peça de cinema coerente. Joel Edgerton, Jesse Plemons, Benedict Cumberbatch, Kevin Bacon, Corey Stoll… meu deus, o número de homens que participam na mais recente longa-metragem de Scott Cooper é abismal. E o pior de tudo é que parecem todos iguais: com os seus sotaques terríveis de Boston e com as suas perucas ainda mais ridículas; soam exatamente todos como a mesma pessoa.

É esse o principal problema de Black Mass: é um filme sem personalidade. Nenhuma das personagens salta do ecrã, resignados que estão à trama estéril. A forma como os acontecimentos se desenvolvem assemelham-se às entradas de uma enciclopédia de biblioteca. O argumento está somente interessado em cobrir, sem drama ou tensão, a vida criminosa de James “Whitey” Bulger, protagonizado por Johnny Depp.

Depp é conhecido pelo seu trabalho camaelónico, desde as suas aventuras com Tim Burton, ao seu imortal papel como Captain Jack Sparrow na tetralogia Piratas das Caraíbas. É um ator que sempre que se despe dos penteados exuberantes e sotaques tresloucados perde algum do seu brilho como profissional, pelo que a sua aparência vampiresca em Black Mass não é nenhum choque.

No entanto, acaba por não ser nada de especial. Não sinto a necessidade de ter Depp no papel; qualquer outro ator conseguiria protagonizar o “silent, strong, type” que tanto inspirou Tony Soprano há meia dúzia de anos atrás. Não digo que Depp não faça um bom trabalho com o que lhe é dado; aliás, há cenas de real ameaça em que veicula a intensidade aterrorizante de Bulger com simples gestos e uma voz sussurrada. Mas tais momentos não chegam para caracterizar a personagem, que acaba por não formar qualquer relação com a audiência.

Até diria que este distanciamento lacónico é algo propositado, porque haveria algum mérito se a intenção da equipa de realização fosse essa. Mas não imagino que seja. Quer dizer, Black Mass é um filme extremamente escravo à realidade, aos acontecimentos factuais perpetrados por Whitey Bulger. Mas a sua ficcionalização é tão desprovida de drama, tão carente em humor que é impossível achar algum interesse nas duas enfadonhas horas que compõe a sua duração. A única relação que Black Mass estabelece com a audiência é a mesma de um soporífero pesado.

Pior que isso é o diálogo. Os argumentistas tentam a infantil noção de encher as conversas entre Bulger e companhia com vitupérios e palavrões infinitos. Por exemplo, a certo ponto, e após uma série de injúrias trocadas, a mulher de Whitey diz-lhe “You motherfucker. Fuck you.”, e sai de cena. Ela não volta a aparecer durante o resto da trama, e a sua ausência não caracteriza o protagonista de forma alguma. Qual foi, então, o propósito da sua discussão? 90% do filme é constituído por diálogos assim, que andam em círculos infindáveis até chegarem a lado nenhum. Se não se aborrecerem passado meia hora, é porque têm um amor interminável pelo Johnny Depp.

À primeira vista, Black Mass é aquela rara longa-metragem prestigiosa, digna de um Oscar para melhor filme, com um elenco de luxo e uma belíssima fotografia. E, na verdade, tem um elenco de luxo, e uma belíssima fotografia. Mas é só. O guião é uma lesma sem vida, a trilha sonora confusa com o tipo de filme em que está. E saí de sala a achar que os americanos são todos iguais.

Mais vale ver o The Departed (2006) outra vez.

4 responses to “Black Mass é uma Autêntica Mess

  1. Ui… Não esperava tamanha crítica arrasadora. Vou tê-la em consideração, visto que ainda não vi o filme. Mas estava curiosa em ver Depp em algo mais do que “Pirata”… mas agora fiquei de pé atrás.

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    • Na minha modesta opinião; não. Sente-se que houve conflito no behind the scenes, é quase como o Fantastic 4 no que toca à estrutura desengonçada da narrativa. Mas tem boas performances.

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