Joe Wright e O Solista (2009)

A terceira longa-metragem de Joe Wright é estupidamente convencional. Após arriscar visualmente com Orgulho & Preconceito, e ousar uma narrativa não-linear com uma trilha sonora exemplar em Expiação, o realizador britânico regride para um estilo comedido e com demasiado ênfase no desenvolvimento pseudo-emocional das personagens. Simplesmente dito, é um autêntico oscar bait, cuja eficiência repousa unicamente nos ombros da dupla de protagonistas.

Jamie Foxx faz o papel de Nathaniel Ayers, um sem-abrigo esquizofrénico que é um savant musical. Um dia, tem um casual encontro com Steve Lopez (Robert Downey Jr., a fazer de playboy-bilionário-filantropo, como sempre), um jornalista que de imediato se interessa na sua história. Lopez depressa se apercebe que Nathaniel é mais do que um artigo para ele; é também uma pessoa que precisa de ser salva.

745765453242Infelizmente, o guião de Susannah Grant demora a arrancar: a história só começa a encaixar passada uma hora, quando Nathaniel e Steve partilham um momento emocional num concerto privado. Esta cena é o ponto alto do filme: junta os dois protagonistas, em sintonia pela primeira vez, ao som de música clássica que embala o espetador num transe sossegado e emotivo. Mas o golpe brilhante de Wright é em inserir uma sequência psicadélica no meio; uma montagem de cores que dançam e variam consoante a nota musical.

Wright tenta emular a sensação de sinestesia, isto é, da estimulação simultânea de um sentido através do êxtase de outro. Neste caso, a experiência visual que é despoletada pelas ondas sonoras do concerto. Esta cena eleva o filme para um plano metafísico que não cola com o resto da narrativa: é apenas um acaso transcendente que o realizador tenta recriar de forma original.

Incidentalmente, O Solista tenta conciliar a esquizofrenia de Nathaniel com a religião católica e o complexo de Deus que Steve aparenta ter. A incumbência do jornalista passa por mudar, forçosamente, a vida do músico: arranja-lhe abrigo, medicação, e até aulas privadas de violoncelo. Ayers começa então a ver Steve como uma entidade divina, uma espécie de anjo da guarda contundente.

É aqui que o filme cai em redundância: dedica tanto tempo a esta relação que se esquece de a tornar minimamente interessante. A maneira como ambos interagem acaba por ser dramaticamente inepta: sabemos que Nathaniel se vai portar de forma exemplar sempre que está com Steve, mas no momento em que entra outra personagem na equação voam cadeiras e o músico torna-se violento. O Solista é previsível, e não da melhor maneira.

A verdade é que o filme é acompanhado por um tom ultra-sério que não lhe convém: Wright brilhou pela comédia romântica e melodramática nas suas longas anteriores; porque não replicá-la aqui? A buddy comedy entre Ayers e Steve daria ao filme a personalidade necessária para se destacar do marasmo corriqueiro que o assombra.

No fim, O Solista não é mais que um showcase para os talentos performativos de Robert Downey Jr. e Jamie Foxx (arredondados pela solidez de Tom Hollander e Nelsan Ellis), apostando numa história demasiado dramática propícia às lágrimas fáceis. É a réplica de uma réplica de uma fórmula demasiado ortodoxa para ser memorável.

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