O Papel da Mulher em Audition (1999)

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É impossível falar de cinema japonês sem falar em folclore, tal como é impossível falar da representação da Mulher no Cinema sem falar em Audition.

Quando me propuseram escrever um dos primeiros artigos para este mês temático, um dos meus primeiros no geral, dois filmes tomaram-me imediatamente de assalto. Um deles óbvio para quem me conhece e sabe como Lady Vengeance (2005) tem o lugar de eleição no meu coração e como ele tão bem me descreve como amante de cinema e como mulher; mas a par desse, um flash de um plano em particular de Audition explodiu na minha mente e lançou-me num dilema que não conseguia ultrapassar: queria falar sobre a mulher como um ser poderoso ou como uma força da natureza, imprevisível, defeituosa? Pode parecer insignificante, mas para mim tem bastante importância.

Falei em folclore japonês porque isso se transpõe para a forma como fazem cinema, e Audition tem, claramente, uma moral, e é à volta dessa moral que vamos construindo a nossa experiência com o filme e com a sua mensagem. Esqueçamos o resto do trabalho notável de Takashi Miike para nos focarmos somente na forma como ele toma o partido da mentalidade feminina e da sua força, e nos brinda com uma experimentação de imagens, sons e ideias imprevisíveis, tal como a mulher.

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Asami é uma mulher com um passado, claro que é, e à partida isso é ok. É a mais calma e serena de todas as candidatas, a sua voz quase que nos obriga a levantar o som para que a oiçamos, e os seus gestos fazem lembrar dança contemporânea. A conexão com Aoyama é também notável e a sua timidez é adorável. Certo? Talvez. O que começa por ser uma estranha espécie de drama romântico vai, pouco a pouco, descendo cada vez mais para um beco sem saída e leva-nos de arrasto consigo, ainda se ri na nossa cara, faz uma dança de vitória e vai-se embora. Um murro no estômago.

Existe algo em Asami que desassossega desde início, mais que não seja pela sua calma exagerada, e ajuda bastante ter como comparação a personagem de Aoyama, um homem afável à procura de um novo amor, um homem que nada fez para merecer o que lhe acontece e que apenas tem o azar de cair nas mãos de uma mulher louca e obsessiva. Mas será assim tão linear?

Quando falei num flash que me veio à memória e me fez escrever este artigo, referia-me ao momento em que, depois de se ter afastado um pouco, Aoyama telefona novamente a Asami e a vemos numa casa vazia, a dormitar sentada junto ao telefone, com um sorriso quando o telefone toca. Miike mostra-se um óptimo cineasta ao vincar a posição exagerada da rapariga, esperando que com isso o espectador fique elucidado da verdadeira natureza desta mulher. De um ponto de vista feminino, este pequeno gesto mostra devoção, amor, paciência – do ponto de vista prático é somente assustador.

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Com o decorrer desta história vamos percebendo dois pontos de vista muito distintos. Vamos, por um lado, conhecendo melhor o passado de Asami e todas as situações que possam ajudar a justificar as suas acções e os seus problemas, mas por outro somos confrontados com peças e imagens tão perturbantes que somos obrigados a não concordar com nada do que ela faça. Parece, muitas vezes, que muitos realizadores usam a demência mental e o desequilíbrio social como uma saída fácil para justificar os actos das suas personagens, mas não é esse o caso.

Audition é um filme que nos mente. Diz-nos que vai ser fácil de ver e de engolir, e que talvez até o Miike já tivesse entrado naquela sua fase estranha das adaptações Manga, mas depois aqueles últimos vinte minutos, damn. Desde vómito transformado em comida, a cotos, mutilações e queimaduras genitais. Tudo completa e sensitivamente justificado pelo passado perturbado de Asami. Smart.

A partir do momento em que entramos nessa rampa final, percebemos por que é Takashi Miike considerado um louco, com as imagens explícitas e egoístas, a montagem sucessiva de planos, ideias e conversas aparentemente sem nexo nem significado. No entanto, tudo o que acontece parece ter uma relação causal com o contacto que Aoyama tem com as mulheres durante o decorrer de todo o filme, e as consequências dos seus pensamentos dão azo a que seja assombrado por todas elas.

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Asami não é uma vilã, uma louca exacerbada que fica magoada só por não ser a única. Não, nem pensar. Asami é simplesmente uma pequena peça do puzzle, inofensiva, mesmo que tenha como passatempo coleccionar bibelots perturbantes de homens desfigurados dentro de sua casa. Ela assume um papel importante na relação deste homem com as mulheres, até mesmo com a sua falecida esposa, e a satisfação com que se prepara e vai até ao fim com as suas torturas só torna tudo ainda mais interessante.

“Ama-me, só a mim. Por favor.” Ele diz que sim, promete e não o cumpre. As mulheres vão saber do que falo.

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