O apocalipse social de Mr. Robot

Mr. Robot é uma ferida aberta, vermelha e a rebentar de pus. Olhas para ela com nojo, com repulsa, mas ao mesmo tempo não consegues deixar de te sentir fascinado com a saliência gangrenosa que cresce na tua pele. Mr. Robot é uma ferida aberta, porque Mr. Robot é a nossa sociedade. A sociedade ocidental e privilegiada, que se senta ao jantar de carne na fuça, a ver notícias de famílias a morrer no Mediterrâneo, chocada com a verdade que não quer aceitar. Mr Robot é o soco no estômago da realidade incontornável que todos preferimos esquecer. Mr. Robot é a revolução.

Mas não é só a revolução anti-capitalista, de foro anárquico que muitos têm bradado aos céus como sendo. Não é só o figurativo dedo do meio à sociedade desconsideradamente consumista a que não queremos admitir pertencer; não é só uma brincadeira de hackers em que os Anonymous reinam grande apesar do seu anti-moralismo vazio e egoísta.

Mr. Robot é a revolução do indivíduo.

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Acham que “fsociety” quer simplesmente dizer fuck society, num ataque violento e verbal ao regime capitalista que nos “oprime”? Ou que o ataque terrorista que é o golpe cibernético deste bando de altruístas significa apenas o colapso económico do mundo ocidental? Não. Fsociety é um que se foda a sociedade, sim, mas porque a sociedade que temos não é o mais importante. Elliot nem sabe se acabou de salvar ou destruir o planeta com as suas ações, desorientado que está com a quebra da realidade.

O mais importante, parece Mr. Robot dizer-nos, é a nossa identidade como indivíduos, como humanos. As aparências politicamente corretas que criamos (ler: sociedade) são uma máscara que corrompe o nosso âmago; todas as personagens em Mr. Robot se sentem impotentes de uma ou outra forma (os desvios sexuais de Tyrell Wellick são uma forma de impotência), e para isso tentam quebrar os moldes em que se encontram, nadam contra a corrente de uma maré que os força contra as extremidades afiadas da sua carteira vazia.

Há quem diga que a fotografia da série seja belíssima (podem descobrir a sua anarquia visual aqui), mas eu não acho que tenha nada de belo. As personagens são atiradas para os cantos do ecrã, cortadas de modo terrível pelo pescoço como cabeças falantes, sem corpo. O peso da sociedade, do mundo onde vivem, é tanto que até a câmara as empurra para o esquecimento desorientador do enquadramento. As regras da composição existem, mas em Mr. Robot são quebradas com mestria não para criar algo “belo” ou “diferente”, mas para criar algo que se entrega totalmente à história que está a contar.

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Não acho pertinente falar dos twists deste último episódio (*), até porque o número de pessoas a ver a série, deste lado do oceano e do outro, é extremamente reduzido comparativamente a mastodontes como The Walking Dead ou Game of Thrones. Mesmo outros sucessos mais pequenos, como Arrow The Flash, vivem do zeitgeist que a cultura pop hoje em dia perpetua. Mr. Robot, por enquanto, é apenas um programa de encanto específico, como Breaking Bad durante as suas primeiras quatro temporadas.

No entanto, tenho a certeza que daqui a um par de anos vai tudo voltar atrás no tempo para ver estes primeiros episódios como quem assistiu de olhos arregalados à transformação do Walter White no Heisenberg. O potencial está lá.

(*) Que foi um final perfeito para uma primeira temporada inesperada e diferente de tudo o que estamos habituados a ter no pequeno ecrã. Não há heróis, anti-heróis, ou vilões de tábua rasa; há homens e mulheres, com vontades e defeitos que guiam o esquizofrénico enredo. 

Houve momentos nesta décima hora de Mr. Robot que pensei estar a ver um filme de terror, em vez de um cyber-thriller com aspirações de uma qualquer revolução social. As explosões de música punk desorientavam-me com o seu constante pára-arranca, e o caos nas ruas de Manhattan soava a apocalipse. Não em forma de zombies, não em forma de um meteoro ou de aquecimento global.

O apocalipse de Mr. Robot é social. É o colapso económico orquestrado pela fsociety, é a libertação da sociedade das grilhetas impostas pelas grandes corporações, pelos media, pela publicidade, que manipulam e controlam o nosso dia a dia. Este apocalipse é aterrador porque é real, contemporâneo, não uma tirada fantasiosa destinada a entreter.

Mr. Robot não entretem. Mr. Robot desafia.

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