10 Melhores Personagens Femininas

É bastante complicado falar em personagens femininas importantes sem recuar até ao cinema dos anos 40, 50, 60, à época das divas, mas quando se tem a responsabilidade de escrever um artigo de opinião como este, corre-se o risco de ou a) não falar sobre nada, ou b) falar sobre demasiadas coisas e tudo ao mesmo tempo. Não queria ser A Chata, mas ao mesmo tempo queria marcar uma posição e afastar-me das personagens que estão na ponta da língua de todos quando se faz a pergunta “Qual a melhor personagem feminina de todo o sempre?”.

Depois de me passar o choque inicial, resolvi pegar naquelas que me marcaram mais como espectadora e, não fosse esse o intuito deste mês temático, como mulher. Espero que a todos também.

10. Grace, Dogville (2003)

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A Mulher de Lars Von Trier é uma mulher sofrida. Não sou grande fã dos seus filmes mas admito que as suas personagens femininas são arrebatadoras. Podia igualmente ter escolhido a Selma de Dancer in The Dark, ou a Mulher de Anticristo, mas existe uma particularidade em Grace que não existe em muitas das outras mulheres do Lars: a falta de controlo.

Grace é uma mulher ingénua, que tenta adaptar-se a um lugar diferente e aparentemente simples, e que por ser apenas alguém que quer cair nas boas graças de todos acaba por ser vítima da má vontade ou da necessidade dos habitantes de Dogville. Aproveitam dela e da sua disponibilidade à medida que se vão revelando e transformando, numa comparação mais do que evidente com a condição humana e a vida na nossa sociedade patriarcal. Grace é, assim, a mulher comum.

A sua evolução e a forma como se vai adaptando a todos os contratempos, é mais do que notória, é gritante, mas sempre paralela à transformação que própria aldeia de Dogville acaba por sofrer em si mesma. Todos esses altos e baixos da sua parte acabam por nos guiar para um desfecho improvável mas satisfatório. Adoro isso nos filmes.

Agora que já tenho a vossa atenção e respeito por mencionar Lars Von Trier, avanço.

9. Cherry Darling, Planet Terror (2007)

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Apresento-vos a Cherry, uma stripper com problemas de choro. Despediu-se porque precisava de uma “mudança dramática” na sua vida e teve-a. No minuto em que sai do bar de strip para não voltar mais, a sua vida dá uma volta de 180º e assistimos a uma montanha russa de acontecimentos, onde de entre os mais marcantes estão reencontrar o ex-namorado, perder uma perna, ultrapassar uma infestação viral e tornar-se rainha das Ilhas virgens.

Se formos a fundo podemos encontrar uma mulher vulnerável mas que deseja ter a sua própria autonomia, alguém a quem a vida não tinha sido muito simpática até então, mas que de uma forma um pouco destrutiva e muito pouco simpática acabou por lhe dar uma recompensa.

Quando Planet Terror saiu, comentaram comigo “este filme é tão mau que se torna bom” e isso descreve não só o seu todo como esta personagem em particular. Obviamente que não é um filme que merece prémios, mas isso não quer dizer que não tenha capacidade para ter boas personagens. Cherry Darling é mesmo fixe.

8. Shosanna Dreyfus, Inglourious Basterds (2009)

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Primeiro que pensem em mais cinquenta personagens da autoria do Tarantino que deviam estar nesta lista, por favor detenham-se de parar de a ler e aguentem-se até ao fim, que há um presente. Posto isto, vamos admitir que uma das principais razões pela qual ficamos agarrados ao ecrã ao ver Inglourious Basterds é por causa desta mulher.

Shosanna tem todas as justificações e razões do mundo para fazer o que faz e para a sua maneira de ser fria e vingativa; e nós acreditamos. Sentimos com ela quando está assustada, torcemos por ela quando faz o seu plano infalível, e até acabamos por ter uma réstia de compaixão pelo soldado Zoller e pelo trágico fim do casal.

Ela é uma mulher de armas, obrigada a crescer rodeada das piores circunstâncias e das mais horríveis das pessoas. Vemos-lhe momentos de fraqueza, de medo, mas aquele seu olhar e sorriso maquiavélico projectado no ecrã daquele cinema em chamas fica para sempre connosco e debaixo da nossa pele.

7. Monika, Summer with Monika (1953)

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Por falar em olhares, é num dos melhores filmes de Ingmar Bergman que nasce uma das suas melhores mulheres, Monika, a criança descontrolada que tem sede de tudo mas que não se contenta com nada. Conhecemo-la como uma jovem mulher, vinda de uma família não só pobre como detestável, que inveja a vida dos outros ao mesmo tempo que detesta a sua. É fogosa e impaciente, desconsolada, e deseja ardentemente uma forma de escapar a tudo o que abomina na sua vida. Conhece então Harry, o par perfeito, e juntos fogem num barco para um verão de amor sem fim.

Quando a história de amor dos dois desmorona, são obrigados a voltar para a cidade, desta vez conscientes, ressacados, num mundo de adultos onde não existe espaço para paixões fervorosas. Monika, sempre sedente daquilo que não tem, torna-se (ou revela-se) então cruel e manipuladora, vulgar, e toma a forma de uma protagonista duvidosa e desligada.

A sua essência selvagem e feroz faz de Monika uma das minhas mulheres favoritas, porque está tão longe de ser perfeita quanto tão perto de ser imaculada. Quando somos forçados a passar quase um minuto na presença do seu olhar directamente na nossa direcção, num dos planos mais marcantes de toda a história de Bergman, percebemos que no fundo não a podemos julgar, que é só uma mulher com defeitos e que também os temos.

6. Lucie & Anna, Martyrs (2008)

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Estas duas personagens não poderiam ser exploradas de outra forma se não esta, em planos apertados e claustrofóbicos, com um pano de fundo completamente vermelho e viscoso, e com a banda sonora recheada de gritos e guinchos de dor. Mas Lucie e Anna são muito mais do que objectos “pornográficos” de gore e tortura, elas são aquilo que eu gosto de chamar anjos da justiça, cada uma à sua maneira e em pontos diferentes desta história.

Conhecemos Lucie, a primeira protagonista que ataca e mata sem piedade todos os membros de uma família aparentemente feliz, de alguma forma ligada ao seu enclausuramento violento enquanto criança. Ao mesmo tempo conhecemos Anna, a melhor amiga que não compreende na totalidade os seus motivos e que se convence de que Lucie terá chacinado uma família inocente.

É somente quando Anna descobre o bunker por baixo daquela casa que a vemos tornar-se na nova protagonista, onde vai actuar em contraponto ao da sua melhor amiga Lucie. O objectivo deixa de ser o de vingar e passa a ser o de sobreviver. De uma forma diferente, Anna dá uma protagonista incomparável, numa viagem contínua de dúvida, incerteza, dor e esperança, exactamente aquilo que Lucie havia perdido há muito tempo.

Não vejam Martyrs se não tencionam acabar, porque a primeira protagonista não vive sem a existência da segunda, e se tal acontecesse seriam dois filmes muito aborrecidos de se ver.

5. Lady Eboshi, Princess Mononoke (1997)

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Vou confessar uma coisa: sempre fui do contra. Achar que a Lady Eboshi é a melhor personagem de Princess Mononoke, e indiscutivelmente da filmografia inteira do Miyazaki, faz parte desta minha condição. Ela é poderosa, impiedosa, gananciosa, mas ao mesmo tempo é generosa e faz o que tem a fazer para o bem de todos; por isso não acredito que exista em todos os seus filmes alguém melhor do que ela.

Quando a conhecemos não percebemos a sua verdadeira natureza. Sabemos que gere uma pequena vila ferreira e que a sua comitiva é atacada por um dos deuses da floresta, mas só à medida que acompanhamos Ashitaka na sua tour por Irontown é que vamos conhecendo as outras facetas desta líder. Percebemos ainda que a vila foi construída em território da floresta, e que Eboshi se prepara para uma batalha. A ganância de acabar com os deuses que a atormentam acaba por consumir Lady Eboshi, mas ainda assim sem a demover do seu objectivo.

Juntamente com San – a “princesa Mononoke”-, Eboshi faz um balanço fantástico entre o racional e o emocional, entre o Homem e a Natureza. Ela parece ser fria e cruel, mas não teremos todos de o ser se a sobrevivência do nosso povo disso depender?

4. Mãe, Mother (2009)

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Quando vi o Mother pela primeira vez fiquei uns minutos sentada na cadeira do cinema, imóvel. Não percebia o que tinha acabado de ver, apesar de todo o plot e todos os acontecimentos serem bastante claros para mim. Lembrei-me da minha mãe, de como tanto ela como qualquer uma das minhas avós poderia protagonizar aquela história. Vemos filmes sobre mães de armas a toda a hora, mas há algo de especial nesta. De forma idêntica à Mãe de Pietá (Kim Ki-duk), também esta mete medo.

Aparentemente esta senhora é uma mãe como as outras, embora o seu filho Dojoon seja diferente dos demais. O seu claro atraso social talvez tenha feito, com o passar do tempo, com que a sua mãe se tornasse demasiado protectora e o seu filho demasiado dependente. Quando todos as provas e factos relacionados com um crime vão dar directamente a Doojoon, e depois da polícia o ter feito assinar uma confissão sem pensar, a Mãe em nada poupa para tentar tirar o filho da cadeia e provar que este está inocente, custe o que custar.

É explorada, de forma brilhante, a verdadeira incerteza humana e a sua constante batalha com o que é moral e correcto. Ainda mais do que isso, é explorado o amor incondicional de uma mãe por um filho, apesar de tudo, e até onde esta é capaz de ir para o proteger. É destes filmes que vive o cinema.

3. Ellen Ripley, Alien (1979)

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Sei, devia estar em primeiro mas não está. Não deixa de ser uma das minhas personagens favoritas, indiferente de género, e confesso até que tenha sido uma das razões que me levou a pegar neste tema. A Ellen é a mulher mais corajosa, destemida, arrojada, e todos os outros sinónimos que possam encontrar; isto tudo enquanto morre de medo ao mesmo tempo. Ela é diferente das outras protagonistas de filmes de ficção científica porque, apesar de tudo, ela luta, resolve, e é agressiva.

Um dos momentos mais reveladores do seu carácter é quando, após o primeiro contacto com um facehugger por parte do Oficial Kane, Ripley se recusa a deixá-lo entrar juntamente com um organismo estranho, tal como ditam as regras. Essa decisão é ignorada pelos restantes membros da tripulação e a ameaça entra dentro da nave. Tiremos conclusões.

Com o desaparecimento de todos os tripulantes da nave, Ripley passa a ser a verdadeira heroína de arma na mão, cabelo desgrenhado, e camisola de alças e cuecas. Filme a filme, vamos assistindo a uma autonomia e a um crescimento descarados, e mesmo os momentos que passa sozinha mostram a sua natureza destemida e a sua audácia natural, sem nunca deixar demonstrar que também tem as suas fraquezas.

Ripley é um dos primeiros grandes exemplos de girl power do cinema comercial, qualquer que seja o filme da saga, e adoramo-la por isso.

2. Geum‑ja, Lady Vengeance (2005)

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Lee Geum-ja foi, em tempos, uma coitadinha. Quando conhecemos a sua história e a sua vida na prisão, ganhamos automaticamente empatia por ela e pela a sua causa, não só por ser inocente do crime de que é acusada, mas também por ser exemplo vivo de bondade e de gratidão com a vida em geral. Quando é libertada por boa conduta e começa a sua verdadeira demanda, ficamos eternamente agradecidos pela sua transformação e agarrados até ao final, sempre na ânsia de saber qual o desfecho trágico que está reservado para esta história.

A expressão “mulher de armas” ganha uma conotação literal em Sympathy for Lady Vengeance: Geum-ja pede especificamente que lhe façam uma arma especial para poder tornar a sua vingança ainda mais fria, como se todo o sistema de justiça que cria no interior de um velho barracão não fosse suficiente. Ela sonha e ambiciona com o momento de premir aquele gatilho como se a sua vida dependesse disso, e talvez até seja esse o caso… Pelo menos a sua consciência ficará tranquila.

Uma das razões pela qual eu e tantas outras mulheres adoramos a Geum-ja é porque ela representa, até certo ponto, a perda da inocência e a luta pela sobrevivência num mundo de homens. Só que neste caso a “sobrevivência” é a vingança, e o “mundo de homens” é somente o de um deles.

Este é o último filme da trilogia temática de Park Chan-wook, que como todos sabemos gira em torno da vingança e da ambiguidade que jaz por trás dos nossos actos. Querem alguém mais vingativo e ambíguo do que Lee Geum-Ja?

1. Mabel, A Women Under The Influence (1974) & Myrtle, Opening Night (1977)

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Não fazia sentido chegar ao final desta lista sem sequer tocar numa mulher de John Cassavetes – e até literalmente, visto que Gena Rowlands era, de facto, sua mulher. De todas as suas protagonistas, Mabel Longhetti é sem dúvida a mais intrigante, apaixonada e frágil; Myrtle Gordon aparece como o outro reverso da moeda, com a sua personalidade forte mas também frustrada e acabada.

Mabel (A Woman Under The Influence) é mãe de três filhos e ama-os incondicionalmente, tal como ao seu marido e à vida que ambos têm. Só que Mabel é desequilibrada e tempestuosa, apesar dos afectos verdadeiros, e o seu marido acaba por enviá-la para uma instituição a fim de poder melhorar longe da vista e das expectativas de todos. Quando volta, o mínimo confronto emocional e físico perturba-a ainda mais, deixando no ar apenas o seu amor mal expressado e os seus sentimentos devastadores.

Por outro lado, Myrtle (Opening Night) é uma famosa actriz da Broadway, com uma longa carreira para trás e uma quantidade enorme de fãs. Participa na peça da sua vida, já que para além de aparentar ser a sua última, a sua personagem parece ser baseada nela própria e no seu próprio medo de se dar por acabada. Somos destruídos pela sua frustração e pelo seu medo de cair no esquecimento, e até da própria morte, enquanto vemos o seu caso de alcoolismo intensificar-se e os seus problemas piorarem cada vez mais.

Era impossível para mim eleger uma em primeiro lugar sem poder fazer o mesmo com a outra. Onde Mabel é afectiva, Myrtle é despegada; onde uma é descontrolada, a outra finge que está tudo sob controle; e é aqui que vemos o trabalho de Cassavetes no desenvolvimento e envolvimento das suas personagens. Podemos não nos identificar com uma ou outra, mas não deixamos de nos sentir tão apertadas como elas, tão desesperadas e perturbadas, e não conseguimos nunca distanciar-nos das suas emoções, dos seus sentimentos e pensamentos, das suas coisas.

Nunca até hoje me senti tão emocionalmente de rastos depois de ver um filme como nestes dois casos. Obrigada Gena Rowlands.

*Menção Honrosa: As mulheres de Kill Bill*

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Não podia acabar isto sem rematar com uma menção honrosa bastante importante para a representação da mulher no cinema contemporâneo, tal como prometi.

Apesar da predominância masculina nos elementos-chave de Kill Bill, as estrelas são as mulheres. A Noiva é, sem dúvida, a que mais se destaca, mas considero o filme um desfile infindável de mulheres poderosas, onde até mesmo a banda de fundo é somente composta por mulheres. Tarantino leva à letra a expressão “badass”, já que parece ser bastante difícil dar-lhes cabo do couro, e traz-nos uma piscina de sensualidade contagiante.

Quem nunca ficou com a célebre música do assobio a zumbir dentro da nossa cabeça, horas e horas a fio, às vezes dias, até? Qual a mulher que nunca se intitulou de Black Mamba enquanto fantasiava em ser uma guerreira de espada? E que atire a primeira pedra quem nunca desejou usar uma daquelas armas marciais ao estilo de Gobo Yubari.

Ao invés de fazer de Kill Bill uma salganhada de personalidades fortes, histórias de vida e perturbações mentais, Tarantino consegue com destreza trazer-nos uma espécie de passerelle de femmes fatale e de combates femininos e, passo a redundância, feministas, num dos filmes mais desbunda que já tive o prazer de ver.  Só resta saber por que equipa é que torcemos.

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