Guillermo del Toro e A Espinha do Diabo (2001)

O que é um fantasma? Uma tragédia condenada a repetir-se vezes sem conta? Um instante de dor, talvez. Algo morto que parece estar vivo. Uma emoção, suspendida no tempo. Como uma fotografia desfocada. Como um inseto preso em âmbar.

Esta citação da cena inicial de A Espinha do Diabo ficou comigo muito depois do filme acabar. Após um discorrer medíocre (CronosMimic), ser recebido com um diálogo esotérico e quase analítico dos temas a serem tratados foi uma surpresa feliz. A sequência de imagens que se segue, em jeito de montagem in media res, sugere uma sensibilidade narrativa que carecia nos filmes anteriores de Guillermo del Toro. Aprontei-me imediatamente para algo diferente, e foi o que recebi.

O local é Espanha nos anos 30, dias antes do fim da Guerra Civil. Carlos, um rapaz de 10 anos, é deixado num orfanato após o seu pai morrer em combate. Pouco tempo após a sua chegada, tem um violento encontro com o guarda do orfanato, Jacinto. Gradualmente Carlos vai descobrindo os segredos que o orfanato oculta, desde ouro escondido a aparições fantasmas.

6457484 É neste filme que as peças individuais da mestria cinemática de Del Toro começam a clicar e a convergir: o seu trabalho com os atores mais jovens dá azo a melhores performances, e os visuais deixam de chamar tanta atenção para si mesmos em prol da narrativa, o que torna os momentos emocionais muito mais impactantes. Nota-se que esta é uma história pessoal para Del Toro, e essa vontade de transferir as suas emoções para o ecrã são de louvar.

Vendo os seus outros filmes, seria de esperar que o lado sobrenatural de A Espinha do Diabo fosse um enfoque subordinante da longa-metragem, mas tal não acontece. A história de fantasmas do orfanato existe sempre na orla da narrativa, um elemento mais tradicional dos filmes de terror que tanto influenciaram Del Toro. É algo que realmente se destaca e distingue o filme: a forma como conjuga o género de terror com o drama pesado da Guerra Civil e de crianças órfãs numa estrutura que deve muito ao realismo mágico tão característico da América do Sul.

A própria história desenvolve-se de maneira pouco convencional: o vilão é bem caracterizado e acontecimentos devastadores sucedem-se quando menos estamos à espera. Pessoas morrem e o gore é basto, em especial numa sequência que me deixou de rastos, bem filmada e dramatizada, muito graças ao sound design que reforça a desorientação e a dor dos protagonistas.

O que torna A Espinha do Diabo tão excepcional é o molde com que aprofunda os temas que Del Toro já havia explorado, desta feita com respostas claras às perguntas que são colocadas. O realizador prova-se um esplêndido criador de mundos verosímeis e fantásticos, mas também um sábio contador de histórias, que não recorre a truques baixos para induzir emoção no espetador. A sinceridade deste seu terceiro filme é o que mais me tocou e prevaleceu desde que o vi.

A Espinha do Diabo é um filme negro, com uma corrente macabra que apesar disso não cobre por completo o tom humanista da narrativa, nem se sobrepõe à sua exploração temática. O terror existencial de uma guerra atómica e violenta é aliado ao da perda dos pais e de uma nação, sem deixar de ser esperançoso e terno na forma com que lida com as personagens mais novas.

Uma autêntica pérola do realizador mexicano, que tão cedo não vou esquecer.

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