Game of Thrones e Hardhome

Os Mastodon aparecem em Hardhome, tornando Game of Thrones na série mais heavy metal da história da televisão. Zombies, sangue, trovões, gigantes e esqueletos ambulantes; haverá algo que transpire melhor o tom endiabrado de um qualquer álbum high concept a retumbar com guitarras amplificadas e vozes extra-roucas?

A série é gira e tal quando nos dá mamas e sexo, mas nada se lhe compara quando nos decide oferecer ação. Nunca vi tal espetáculo no pequeno ecrã, até porque o meio não é propício a orçamentos largos o suficientes para batalhas desta escala. Joss Whedon fabricou algumas set-pieces interessantes nos seus tempos low-budget em Buffy, e Vince Gilligan é um mestre no que toca à criação de tensão (ver: Breaking Bad) mas D. B. Weiss e David Benioff, os argumentistas por detrás da maior parte dos episódios de GoT, encontraram aqui o seu apogeu.

Os últimos 20 minutos de Hardhome são uma autêntica masterclass de como engendrar uma resposta emocional por parte da audiência através de ação implacável e caracterização extraordinária, pelo que achei mais interessante analisar a sequência titular do que fazer uma review clássica ao episódio.

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Tudo começa com cães a latir e um trovejar sinistro. A inexistência de trilha sonora é propositada: obriga o espetador a estar atento às outras pistas de áudio. Miguel Sapochnik (realizador deste episódio) mostra-nos com movimentos lentos de câmara a reação dos wildlings no acampamentomas realça com precisão três faces no meio da multidão: a de Jon Snow, a de Tormund, e a da recém-chegada Karsi.

Karsi, apesar de ser uma nova personagem com pouco mais de 5 minutos de tempo de antena, funciona como a âncora emocional da batalha: a sua caracterização é de tal modo excepcional que ficamos de imediato apegados à sua pessoa. Notamos a sua resiliência e pragmatismo, assim como a vontade de manter os seus filhos seguros.

Com o nevoeiro vem um crescendo lento de música retirada de um qualquer filme de terror, a nota contínua das cordas a prender a respiração e o ribombar calculado dos trovões a pontuar o brusco movimento em massa dos wildlings fora da muralha de madeira. Cai então o primeiro peso de tensão quando é dada a ordem para fechar os portões; reparem que até agora não vimos nenhum movimento hostil, mas sabemos que algo terrível aí vem.

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A música irrompe numa compassada explosão de terror; o nevoeiro oculta a encosta adjacente e os portões fecham-se. Sapochnik delonga-se nas expressões das personagens até que a gritaria do exterior do acampamento cessa por completo: vemos a fresta inferior da muralha, a trilha sonora dá um descanso e as sombras dos pés desaparecem. Estes segundos são brilhantes na forma como nos introduzem à gélida ameaça. O Thenn aproxima-se com vagar; temos um plano de ponto de vista dele a olhar pela ranhura dos portões, ouvimos gritos e passos abafados no exterior até que um berro estridente e uma figura esquelética rebenta pela madeira.

Uma cena semelhante passa-se dentro da caserna com o Edd Doloroso e o gigante Wun Wun, na qual os guerreiros desembainham as suas armas defensivamente e a madeira do tecto range. Novamente passos e uma abertura agourenta de onde surgem um sem número de bestas mortas-vivas. Sapochnik podia ter saltado de imediato para uma batalha em campo aberto, repleta de vísceras e adrenalina, mas optou por construir a tensão de forma delongada, colocando o ênfase na reação emocional da audiência.

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A câmara não se perde no meio da confusão que se segue e, por extensão, nós também não. Espadas e ossos e violência pontuam o frenesim total dos wildlings a atropelarem-se para chegar primeiro aos barcos, mas também temos breves diálogos entre as três personagens previamente mencionadas. Não nos esquecemos do que está em jogo: não só a vida destes milhares de homens e mulheres, mas também a tentativa aliança da Patrulha da Noite com os wildlings.

Este malabarismo visual é extremamente complicado, pelo que a montagem de Hardhome merece todos os elogios por construir uma métrica perfeita entre a ação e o drama. Mais à frente, quando Karsi é devorada pelos pequenos walkers, Sapochnik sublinha o momento com alterações na trilha sonora e close-ups do rosto chocado da mulher. A visão daquelas crianças sem olhos e esqueléticas é uma das imagens mais arrepiantes num episódio recheado delas.

Com efeito, o combate central entre Jon Snow e o White Walker, para além de bem coreografado, também faz uso de visuais impressionantes e de um sound design penetrante. Quando a criatura do gelo surge na barraca em chamas, as labaredas parecem afastar-se à sua passagem: um óbvio signo da relação entre estes dois elementos e de quem, naquele momento, está em superioridade (não nos esqueçamos que o título original da série é A Song of Ice and Fire).

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Mas analisemos melhor este combate. Começamos com Snow à procura de dragonglass, o único material que tem a certeza conseguir aniquilar o walker. Mas não o alcança a tempo de combater o seu adversário, que passa a desarmá-lo: Longclaw, a espada de Jon, é atirada para fora da caserna. Agarra então noutra lâmina aleatória, apenas para ser destruída numa remetida impassível do vilão. O que torna a cena tão absorvente e entusiasmante é o seu foco particular nesta busca por uma arma. Como espetadores percebemos instintivamente este objetivo, o que permite ao combate funcionar de uma forma muito mais visceral.

Uma das regras seminais do cinema é a “show, don’t tell”, e Sapochnik aplica-a na perfeição. O realizador mostra-nos duas vezes espadas a quebrar ao toque da lâmina do White Walker, pelo que quando Longclaw choca sem se romper em duas, arregalamos de imediato os olhos em expectativa. E de repente estamos a bradar aos céus com os braços no ar quando o walker se fractura em mil pedaços.

Fico todo arrepiado só de recordar este momento.

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E este também. Não há nada mais aterrorizador que um vilão silencioso, e a apatia oh-tão-humana deste Night’s King torna-o no pior monstro de Westeros. Que se danem os Boltons deste mundo; o que vai ser do Norte e do Sul quando o gesto final do vilão é ressuscitar os mortos de ambos os lados? Quem pode derrotar tão imponente exército?

Podia estar mais mil palavras a descrever o virtuosismo visual absolutamente cinemático deste episódio de televisão, assim como a trilha sonora irrepreensível e o argumento que constrói uma tensão implacável em pouco mais de 5 minutos, mas acho que já elogiei Game of Thrones que chegue por uma semana (*).

(*) Acho complicado analisar uma série episódio a episódio, principalmente uma tão intrinsecamente serializada como GoT; é uma das razões pela qual evito fazer reviews semanais de televisão. Programas deste género funcionam melhor quando a história é contada na íntegra e nos é possível entender, ou não, a intenção dos criadores aquando de momento x ou y. Conjeturar é muito fácil, opinar no todo acabado já é uma tarefa mais cabeluda.

Hardhome foi um dos episódio mais sólidos da série (ao nível do Blackwater ou do Rains of Castamere), e um que mostra com afinco a proeza da equipa criativa. Contar uma história não é uma incumbência leve, contar várias torna-se um autêntico jogo de gestão narrativa.

Game of Thrones é a melhor série-mosaico da atualidade, e episódios destes são prova disso.

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