Hannibal e a brutalidade visual

Hannibal é um milagre. Não falo da personagem titular, que mais passa por Lúcifer reencarnado do que outro tipo de analogia religiosa, mas da série em si. É extremamente violenta, mas simultaneamente erudita, ostentando as vísceras das vítimas do famoso canibal como arte pós-moderna. As suas personagens são propensas a longos discorreres filosóficos, e a música classicista que acompanha os inquietantes visuais pertence a uma época passada que a geração fast-food não costuma apreciar. Parece impossível ter encontrado uma audiência.

E, no entanto, já vai na sua terceira temporada. Vinte e seis horas de sangue, brutalidade e existencialismo absurdista que me continuam a fascinar.

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Mads Mikkelsen é o Hannibal Lecter perfeito: sinistro, sensual, arrepiante, bom cozinheiro, e extremamente inteligente. Como toda a pessoa inteligente, Lecter delonga-se no seu próprio aborrecimento e numa ausência de ligação com o mundo, que digna ser inferior. A sua propensão canibal deve-se mais a um instinto altamente elitista do que à selvajaria subhumana que normalmente lhe é associada; vem da vontade que tem em estabelecer uma relação com o ser humano, nem que seja através de pratos de culinária ‘exóticos’.

E que extraordinariamente requintados são esses pratos.

Se todos os programas de culinária fossem realizados como as sequências de confecção em Hannibal, passaria muito mais tempo a vê-los. Aliás, se soubesse conseguir cozinhar carne humana (ou qualquer carne, verdade seja dita) com a minúcia e mestria de Lecter tinha virado canibal desde que pus os olhos em cima do seu primeiro jantar. Passo os 40 minutos de episódio em constante salivação.

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Os visuais são, para mim, a principal componente da série, pois são os responsáveis pelos pesadelos muito (demasiado) reais que cria. Corpos mutilados tornam-se objetos de arte; a simbologia perfeita para a transcendência humana. Ou da sua finitude: ambas estão de constante mão dada em Hannibal, assombrando a personagem titular com apatia ou desorientando puzzles humanos como Will Graham (Hugh Dancy). Mesmo que a narrativa seja excessivamente lenta por vezes, nunca deixa de impressionar com as suas imagens surreais, cujo artifício vai para além daquilo que seria de esperar.

Não conheço série tão ecléctica visualmente como esta; os seus alicerces estão bem enraizados no cinema de terror, mas também vai buscar inspiração a thrillers de suspense como o Psycho (1960) de Hithcock e a policiais de televisão mais vulgares. Tal não é por acaso: Hannibal tem a sorte de poder contar com realizadores como Vincenzo Natali, Guillermo Navarro e o mestre David Slade, cuja habilidade atrás da câmara nos trouxe Mizumono.

Esta terceira temporada escusa-se de responder às questões que esse episódio deixou em aberto: estará Will vivo? E Jack Crawford? Ou a Drª Alana Bloom? Morreram todos? Passamos a primeira hora em Itália, somente com Hannibal e a sua ex-psicóloga / atual parceira no crime Bedelia Du Maurier (Gillian Anderson). Anderson tem sido uma presença fantástica, embora até agora só tenha atuado na orla da narrativa. Com a sua promoção para atriz regular, empresta todo o carisma e beleza a uma personagem que de repente se tornou tão intrigante quanto a principal.

Antipasto (*), o primeiro episódio da terceira temporada, explora as diferenças binárias entre a moralidade e a moral, entre a estética e a ética, entre a observação e participação. Ao colocar Du Maurier entre a espada e a parede que é Hannibal Lecter, enfrenta o próprio espectador com o fascínio que sente pela personagem titular. Apesar de todos os vis crimes já cometidos pelo canibal mais famoso da ficção, continuamos a dissecá-lo como um anti-herói, quando na verdade não é nada mais que um psicopata assassino.

(*) Após duas incursões pela gastronomia francesa e japonesa, desta feita exploramos a cozinha italiana e os seus pratos acabados em ‘o’.

Não posso aconselhar Hannibal a qualquer pessoa: a brutalidade radicalmente expressiva das suas imagens podem custar noites de sono aos mais impressionáveis, e a sua pretensão intelectual é capaz de alienar os mais pacientes dos espetadores. Mas é tão original e divertido no sentido mais macabro da palavra que não consigo de deixar de a acompanhar e recomendar.

Estreia 6 de Junho, às 00h15, na AXN Portugal.

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