5 Excelentes episódios de televisão

Agora que os orçamentos aplicados às séries de televisão começam a aumentar em relação ao grande ecrã (algumas são mais caras do que um pequeno filme indie), e que géneros como a fantasia e a ação tendem a ser realizados com um tom mais cinemático e artístico, acho interessante explorar alguns dos episódios que melhor sintetizam estas inclinações modernas.

Desde o papel dos atores, à expressão do argumento e até às ferramentas expedientes do realizador, nesta lista enfatizo o que distingue os melhores episódios contemporâneos em relação à regurgitação cíclica e desinspirada de séries como C.S.I e Lei & Ordem, muitas vezes considerados os supra-sumos incontornáveis da televisão.

Para os mais preocupados, não incluo spoilers nesta lista, apenas traços amplos da narrativa do episódio em questão.

1. Blackwater – Neil Marshall (Game of Thrones, 2012)

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O aspeto mais peculiar de Blackwater é a contração da narrativa relativamente ao espaço que percorre. A maior parte dos episódios de Game of Thrones saltam entre personagens por todo o continente de Westeros, mas em Blackwater a história prende-se a King’s Landing e às consequências da batalha no grande ensemble de personagens lá situada. Tal enfoque serve apenas para aumentar a tensão dramática e para acrescentar energia às interações do elenco, particularmente nas cenas entre Cersei e Sansa.

Grande parte desta assertividade vem da realização de Neil Marshall, instruído na arte de criar set-pieces possantes com um orçamento apertado ou de outro modo reduzido. A magia de Marshall prende-se com o facto de nunca duvidarmos dos efeitos que nos são apresentados; os digitais contrabalançados por momentos mais pequenos de gore visceral e prático.

Pânico, dor e confusão são as emoções mais comuns neste episódio, todas elas ilustradas na perfeição pelo argumento do próprio George R. R. Martin, cuja realização de Marshall serve na íntegra. O episódio é talvez o mais impressionante a um nível puramente técnico no que toca ao que o pequeno ecrã consegue fazer, com as explosões verdes e torsos desmembrados a entorpecer os nossos sentidos como seria de esperar de um grande blockbuster. Sem precedentes e perfeito em todos os níveis.

2. Boardwalk Empire – Martin Scorsese (Boardwalk Empire, 2010)

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Martin Scorsese volta às suas raízes de máfia italiana com este sumptuoso primeiro episódio de Boardwalk Empire, produzido para a HBO com o custo de 18 milhões de dólares. A duração de quase uma hora e meia é um testamento à sua ambição e diversidade narrativa. Não havia muita televisão assim em 2010: criada por um realizador tão influente como Martin Scorsese, com custos de produção elevadíssimos e grandes nomes como Steve Buscemi a protagonizarem as personagens principais da série.

Apesar do malabarismo narrativo necessário para criar uma crónica de todos os gangsters famosos dos anos 20, Boardwalk Empire sucede sem suar graças à experiência incomparável de Scorsese. No que viria a ser o paradigma para os episódios que se seguiriam, esta primeira incursão na era da Lei Seca faz uso do vasto esquema visual e da atenção ao detalhe pelo qual o realizador de Taxi Driver (1976) é conhecido.

É que tudo está lá: desde os movimentos de câmara fluídos e bem compostos, ao uso da montagem com música de época, até ao emprego da ação paralela (o clímax do episódio passa-se em dois locais diferentes com dois diferentes grupos de personagens). O episódio encapsula perfeitamente toda a carreira do realizador até à época. Boardwalk Empire vive do excesso, da cor, do humor negro e da violência criminal tão particulares a Scorsese.

3. Mizumono – David Slade (Hannibal, 2014)

235262Grande parte do estilo visual de Hannibal deve-se aos episódios realizados por David Slade. Mais conhecido pelo seu trabalho em 30 Dias de Escuridão (2007) e Twilight: Eclipse (2010), Slade tem como marca pessoal imagens macabras e negras, uma estética repleta de cenários completamente escurecidos, embora pontuados por borrifadas de vermelho saturado e violento. Para além de produtor executivo, já esteve atrás da câmara em 5 episódios da série, mas o que mais se destaca é Mizumono.

Sendo o final da segunda temporada é normal que os acontecimentos climáticos forcem uma qualidade elevada em relação aos que o antecedem. No entanto, Slade emprega todas as técnicas cinemáticas de que se lembra, desde duplas exposições a crossfades, até spit-screens medonhos que fundem as personagens numa só. O episódio é também realçado por cenas de ação extremamente violentas que a série não costuma empregar, pois foca-se mais na introspeção e na filosofia moralista dos seus protagonistas.

Slade cria um crescendo visual, mantendo os espetadores presos à primeira metade lenta e sinuosa até que solta uma quantidade anormal de brutalidade não refreada na segunda metade. É como um soco no estômago: de certo modo estamos preparados para estes momentos de puro terror, mas a estrutura do episódio acentua-os de forma genial. Só os últimos minutos têm das imagens mais arrepiantes que já vi em televisão, com sangue por todos os lados na cor vermelha saturada de Slade.

4. Modern Warfare – Justin Lin (Community, 2010)

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Mais conhecido por realizar a maior parte dos filmes da saga Velocidade Furiosa, Justin Lin trouxe o mesmo tipo de ação exuberante para o pequeno ecrã com este episódio que trata de um jogo de paintball apocalíptico num campus universitário.

Modern Warfare é um pastiche e uma homenagem a um sem-número de de filmes de ação como Hard Boiled (1992) ou o Exterminador Implacável (1984). Cita por completo uma sequência do The Warriors (1979) e a sua cena inicial é reminiscente do filme pós-apocalíptico 28 Dias Depois (2002). Lin constrói o episódio à volta de clichés de ação conhecidos, incluindo todos os passos narrativos dos blockbusters de Hollywood de uma maneira que os torna satíricos mas simultaneamente fulcrais para a história a ser contada.

O episódio permitiu a Lin esticar os seus músculos criativos num quadro cinemático mais contido do que num filme de hora e meia. As vistas panorâmicas do campus apocalíptico são dignas de uma tela widescreen, e a coreografia de ação parece vinda da indústria de cinema de Hong-Kong. Os 20 minutos de episódio possuem um ar particular aos blockbuster de milhões de dólares num orçamento reduzido de televisão; uma proeza que aqui é invisível apesar da sua complexidade.

5. Ozymandias – Rian Johnson (Breaking Bad, 2013)

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Ozymandias é uma hora de televisão devastadora. Começa por nos apertar o coração com a cena inicial, e então tudo se desenrola num carrossel cataclísmico de emoções fortes e adrenalina. Tal é a alteração de tom (no máximo, Breaking Bad passa por um thriller – aqui transforma-se em terror autêntico) que o próprio Guillermo del Toro quis realizar o guião assim que o leu.

Feliz ou infelizmente, quem o acabou por fazer foi Rian Johnson, respondendo ao realizador mexicano com um ‘Desculpa, sou eu que vou foder a rainha do baile’. Não há melhor humor negro para descrever os acontecimentos assoladores deste episódio. Johnson já havia realizado o episódio Fly, bastante polarizante mesmo para os fãs mais acérrimos; por outro lado Ozymandias é quase unanimemente aclamado como a melhor entrada da série.

O realizador cria um ambiente claustrofóbico mesmo quando as personagens estão em espaços abertos, com planos parados e close-ups que não dão espaço para respirar. Cortes rápidos para o cenário aberto do deserto do Novo México permitem uns segundos meditabundos das atrocidades que são cometidas no ecrã. A infame cena da faca é um exemplo perfeito: repleta de pistas visuais que nos deixam a sofrer por antecipação, com o coração nas mãos. Apesar de ser o argumento a criar estas situações, é a realização cirúrgica de Johnson que as traduz de forma exasperada para o ecrã, criando assim uma peça de televisão que não nos deixa desviar o olhar mesmo quando sabemos que devíamos.

(1) Parte deste artigo foi inicialmente escrito por mim, em inglês, para o site Taste of Cinema.

(2) A lista está por ordem alfabética 😉

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