Os Últimos Cavaleiros e o déjà vu

Poupo-vos já 5€: boicotem forte isto. Não sei se sequer estava no radar de alguém, apesar daqueles posters com as caras do Clive Owen e do Morgan Freeman em tamanho colossal chamarem bastante a atenção. É que não vale mesmo a pena. São duas horas de um épico medieval desprovido de qualquer personalidade. Nem chega a ter piada pelo lado B-movie que certas sequências parecem ter.

Os Últimos Cavaleiros não é nada mais que uma paragem salarial para as grandes estrelas do filme. Os visuais são aborrecidos: todas as cenas preenchidas por um tom acinzentado e por uma névoa baça que retira a cor das personagens e de alguns cenários bem construídos e decorados. O argumento não tem qualquer humor e as personagens detêm todas a mesma personalidade: aquela equivalente ao de uma parede.

42525 Dever, honra e lealdade são os temas deste filme de cavaleiros à procura de vingança. Clive Owen faz o papel de Raiden, um guerreiro desgraçado que tenta restituir a reputação da família do seu mestre Bartok (Morgan Freeman), que é manchada e destruída durante a primeira parte da narrativa.

A “homenagem” a 47 Ronin não passa nada despercebida, mas é-me incompreensível como é que alguém achou que seria boa ideia transpor o período Edo japonês com samurais para um mundo medieval demasiado genérico para se destacar. O facto de nenhum dos protagonistas ser particularmente distinguível um dos outros também não ajuda a tornar a história mais pessoal para o espetador; não se forja qualquer laço emocional com as personagens, pelo que nenhuma da tensão é bem aproveitada.

Este é um erro crasso que muitos filmes cometem: não constroem arcos narrativos para os seus protagonistas, inviabilizando toda a exploração emocional do argumento, se é que a há. Deste modo nós, a audiência, não sentimos ligação com as personagens, pelo que qualquer momento de perigo é obsoleto pois não nos importamos se elas vivem ou morrem. Do que é que adianta o argumento nomear um protagonista se nós não o entendemos como tal?

Por outro lado, há um multi-culturalismo do elenco que é de louvar. Caucasianos, africanos, iranianos, israelitas, coreanos e japoneses co-habitam neste mundo com uma naturalidade incrível. Qualquer diálogo inter-racial verosímil é uma lufada de ar fresco. No entanto, não percebo como é que este tipo de escrita socialmente progressiva reduz as mulheres da história a nada mais que esposas choronas ou prostitutas abusadas. Porquê criar um mundo sem racismo mas detentor de uma misoginia bruta que nem sequer corresponde aos temas do filme?

Foram pormenores semelhantes que me causaram uma sensação de déjà vu inquietante do início ao fim. Há uma sequência de ação que serve de clímax a Os Últimos Cavaleiros muito bem composta e fabricada, com um sentido de urgência que carece ao resto da narrativa. Infelizmente, é o único ponto alto num filme tão desinteressante (e desinteressado) como este. Já vimos esta história ser contada um sem número de vezes antes, com atores mais capazes, visuais mais atraentes e personagens mais memoráveis.

Nem o Morgan Freeman consegue salvar este clone insípido do seu próprio tédio.

6 responses to “Os Últimos Cavaleiros e o déjà vu

  1. Perfeito comentário, fiquei atônito com o filme. Nada a ver, não percam seu tempo. Detalhe, ocorre num mundo que não é Europa, não é africa nem America, e não há cristianismo nem islã? então onde ocorre essa parada? Que coisa… |Mas se salva pela fotografia.

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