Crítica: A LAGOSTA, da sátira à tristeza

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Se o sarcasmo se materializasse, esta seria a sua forma.

Depois de nos trazer a hipérbole (Canino, 2009) e a metáfora (Alpeis, 2011), Yorgos Lanthimos traz-nos um conto absurdo sobre a ironia das nossas vidas ridículas. Ele é originalmente original a contar histórias fora de vulgar, e isso é mais do que posto em evidência num filme que celebra a pressão social em sermos, passo a redundância, sociais e genéricos. No seu primeiro filme falado em inglês, este realizador traz-nos um elenco genial de luxo que conta com John C. Reilly, Rachel Weisz, Léa Seydoux e Olivia Coleman, entre outros, e que garantiu assim prémios e nomeações em Cannes 2015 e nos BAFTA 2016.

Em A Lagosta, adultos sem um par romântico são levados para um hotel, e se durante mais de 45 dias não encontrarem um parceiro, são transformados em animais. Se esta premissa não for o suficiente para vos convencer de que algo não bate bem nesta história, tal confirma-se no primeiro instante do filme, quando a única preocupação de David em relação ao novo marido da sua ex-mulher é se este usa óculos ou lentes de contacto.

Imaculadamente retratado por um Colin Farrell barrigudo, David parece ser extra-preocupado com as coisas mais inúteis da sua vida, e com a opinião que os outros têm sobre si. No entanto, todos os que o rodeiam parecem assemelhar-se a este tipo de padrão de personalidade, e percebemos então que é mais feitio do que defeito. O cuidado de Lanthimos em manter este aspecto presente do início ao fim é de louvar.

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O título do filme refere-se a um pormenor importante da personalidade do nosso protagonista, mas este facto é, curiosamente, também ele banalizado e generalizado como todos os outros pelo diálogo genérico em que se insere. Na eventualidade de não conseguir encontrar parceira dentro de 45 dias, David deseja tornar-se numa lagosta porque as lagostas vivem centenas de anos, têm sangue aristocrata e são sexualmente activas até morrerem. É este o tom do filme, sem nexo.

Apesar da minha descrição, esta Lagosta é genuinamente engraçada, prometo. Como sátira negra assumida que é, há uma contradição evidente entre o entusiasmo deste género e a banda sonora repleta de violinos dramáticos e assustadores, o que me leva também a interpretar A Lagosta como uma espécie de sci-fi desactualizado dos anos 50, mas sem estar verdadeiramente desactualizado – a pertinência de cada personagem, das suas conversas e dos seus raciocínios mostra-nos homens e mulheres que se reduzem a uma ou mais características superficiais, reais ou inventadas, para encontrarem parceiros. Soa familiar, Facebook?

Existem momentos menos engraçados, como as palestras e teatrinhos de lavagem cerebral em que se explicam e exemplificam os problemas de não se ter um companheiro, ou os castigos físicos para quem pratique satisfações sexuais individuais, e ainda as actividades exteriores de caça ao solteiro, por exemplo. Mas há uma pequena sequência em câmara lenta da primeira caçada de David na floresta que nos mostra como Lanthimos consegue brincar com os nossos sentimentos, ao transformar uma cena triste em algo severamente hilário.

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Porém, a segunda metade de A Lagosta deixa os maneirismos mecânicos de parte e mostra-nos o verdadeiro lado duro desta sociedade, onde até os solteiros rebeldes seguem regras tão ou mais rigorosas do que os hóspedes do hotel, e onde somos levados a passear infiltrados pela cidade dos casais (o simples facto de se andar sozinho em espaços públicos é motivo para suspeita das autoridades). Exploramos o romance, o destino, e pensamos na música electrónica de uma maneira completamente diferente, graças a uma das citações mais cómicas do filme.

É precisamente essa a base para um filme de quebrar o coração, um filme que por vezes se torna ligeiramente sinistro, mas, devido à destreza com que está escrito, acaba por ser estranhamente divertido. Tal como no nosso dia-a-dia, só as pessoas mais sarcásticas conseguem compreender e até desfrutar do próprio sarcasmo, e é assim que vejo este A Lagosta.

Quem já o tiver visto sabe do que falo: as conversas supérfluas e os detalhes aparentemente insignificantes, uma voz-off constante, repetitiva e completamente redundante acerca das acções das personagens e dos seus pensamentos, e as chaves de raciocínio completamente disparatadas sobre os assuntos mais aborrecidos. Nota-se, com tudo isto, o paralelismo e a parábola clara e moral.

A Lagosta somos nós daqui a um século.

4 stars

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