Joe Wright e Expiação (2007)

Como fazer um filme de guerra sem a mostrar? Quando ouvi falar de Expiaçã(2007) pela primeira vez, pensei que ia ser outra entrada para o cânone de cinema da segunda guerra mundial, em voga na viragem do milénio graças a filmes como O Resgate do Soldado Ryan (1998), do mestre Spielberg. Apesar de apreciar imenso este último, o tipo de história associada à devastação nazi costuma-me deixar reticente: muitas vezes torna-se exploração de uma dor que não pode, ou deve, ser partilhada por todos. É um recalcar intempestivo da tortura de outros.

Felizmente, Expiação é tudo menos um filme de guerra ordinário.

5435 Em 1935, Briony Tallis (Saorsie Ronan), uma rapariga de alta-classe com 13 anos, espreguiça-se no seu quarto ao terminar de escrever uma peça de teatro. Briony é excelente a contar histórias: imagina tudo ao mais ínfimo detalhe, concebe relações idealizadas e põe-nas ao papel. Mas tudo muda quando acusa Robbie (James McAvoy), o amado da sua irmã mais velha Cecilia (Keira Knightley) de um crime que não cometeu. Robbie é então enviado para a guerra e Cecilia afasta-se da sua família, separando os dois irrevogavelmente.

O que se segue é a história destas três personagens, numa trama contada através de saltos temporais não lineares e de uma narração que nem sempre é a mais fidedigna.

Joe Wright volta a adaptar um livro para a tela grande, desta feita o homónimo clássico moderno de Ian McEwan. Adaptações são complicadas, pois têm sempre a árdua tarefa de satisfazer ambos os fãs do original e aqueles que nunca o leram. Mas Expiação dificulta ainda mais essa tradução entre meios, devido aos seus três protagonistas e cronologia extremamente flexível. Como contar uma história coerente numa linha temporal instável em que as personagens principais mal interagem entre si?

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A solução parece recair no desenvolvimento demorado e meditabundo das personagens. Cada cena é pensada neste sentido, construindo-se em prol de evidenciar as qualidades e defeitos dos intervenientes. Quase uma hora do filme é passada na mansão de Briony, um local sumptuoso, simbólico do estrato social da família Tallis. Esta circunscrição espacial faz maravilhas às interações das personagens e ao acelerar vertiginoso da tensão, que encontra o seu clímax prematuro no fim desta sequência inicial.

Wright faz um excelente uso de uma ferramenta a que costumo torcer o nariz: a de repetir certos eventos da perspetiva de personagens diferentes. No entanto, aqui, ela serve para nos mostrar como é que a mente de uma criança como Briony pode deturpar os momentos mais inocentes da vida amorosa. Ela pensa que pode falar e agir como uma adulta, mas não sabe distinguir um beijo consensual de uma violação. Achei refrescante este ênfase que Wright dá à sexualidade incipiente da infância e à explicita da juventude; um paralelismo freudiano que tem as suas repercussões na narrativa mais tarde.

Incidentalmente, Expiação é muito mais esparso com os movimentos de câmara compridos e elegantes que tanto me impressionaram em Orgulho & Preconceito. O realizador continua a ser meticuloso no que toca à composição dos planos (com a cinematografia a cargo de Seamus McGarvey não seria de esperar menos), e os tons azulados e dourados do seu filme anterior continuam presentes neste, assim como o brilho agradável de cinema de época.

Mas quando já me estava a acostumar ao estilo mais sossegado de câmara, Wright espeta-me com uma tracking shot de aproximadamente 5 minutos. Se me perguntava como poderia ser feito um filme de guerra sem a mostrar, obtive aqui a minha resposta. A chegada de Robbie às praias de Dunkirk é das coisas mais belas que já vi: sentimos o desespero, o suor das batalhas e o peso inconcebível de toda a morte naquele instante: soldados berram os pulmões para fora, cantam, rezam, choram; o sol põe-se à beira mar num tom alaranjado angelical e Robbie calcorreia a areia como uma barata tonta: um homem sem lugar, sem pátria, sem mulher; um homem perdido no mundo.

São momentos assim que me fazem amar o cinema, são momentos assim que me fazem querer falar e discutir filmes. Expiação pode ter problemas com o melodrama associado ao romantismo da história, assim como um final polarizante que tem a pretensão de imbuir a ficção com a realidade num emaranhado complexo de sentimentos que não sabemos se havemos de sentir, mas também tem uma trilha sonora brilhante, que mistura sons diegéticos com não diegéticos e composições operáticas de uma simplicidade inteligível.

Uma pérola moderna do cinema americano.

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