Arrow e a tosta queimada

Já tiveram a experiência de preparar a melhor tosta da vossa vida, colocá-la na tostadeira, toda direitinha, só para sair queimada? É que até se fica com medo de barrar manteiga. A cozinha passa a tresandar a pão torrado e o lanche é imediatamente uma má memória para ser reprimida. O pior são os minutos a fio em que decidimos o que fazer com ela. Vai para o lixo, inteiramente desperdiçada? Ou engolimos o orgulho e choramos o mau sabor? Foda-se vou é esperar pelo jantar.

Para quem ainda está à procura da comparação, a terceira temporada de Arrow é a tosta queimada.

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Desde os primeiros episódios que Arrow se tem definido pelo tom ultra-sério e ultra-edgy popularizado pela afamada trilogia The Dark Knight (2005, 2008, 2012) realizada por Christopher Nolan. Tal pedia uma certa vergonha não admitida pelas raízes da série nos quadradinhos de banda desenhada. De repente, os superheróis eram cool mas apenas se o humor juvenil desaparecesse por completo, ou fosse limitado a uma personagem só, a.k.a. a gloriosa Felicity Smoak. Todo o tipo de apetrechos de BD tinham que ser explicados: porque é que alguém usaria um fato parolo para lutar contra bandidos? E porquê o arco e a flecha e não umas potentes .45 à Justiceiro?

Esta reticência em adotar uma leveza tonal desapareceu por completo com os primeiros Avengers (2012) e depois com The Flash, no ano passado. De repente, a matiz acinzentada e desbotada era moda do passado; queriam-se cores vivas, vermelhos, azuis, e graçolas a todo o segundo. Afinal de contas, é isso que, geralmente, associamos à leitura de banda desenhada, certo?

Claro que há espaço para tudo e etc., mas Arrow, por vezes, tornava-se numa paródia do seu próprio estilo sisudo, com o Detetive Lance, por exemplo, a falar que nem uma personagem de antiquados filmes noir. Apesar de que sim, faz parte do charme dele.

No entanto, o final da segunda temporada acabou por ser uma feliz revelação para a série: Deathstroke foi um fantástico e aterrorizante vilão, as sequências de ação foram extremamente bem coreografadas e a própria cinematografia deu que falar pela iluminação belíssima das cenas noturnas. Com efeito, esta terceira temporada resolveu introduzir um sem número de novos heróis, cada um mais burlesco que o anterior, assim como alterou a paleta de cores para uma mais alaranjada, de pôr-do-sol. Tudo parecia bem encaminhado.

Então, o que é que correu mal?

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Não foi a ação, ou sequer a direção de fotografia. Nem tão pouco foi a criatividade artística: o fato de Ray Palmer (Brandon Routh) como A.T.O.M. é uma delícia de se ver no pequeno ecrã. O que aconteceu foi que os escritores esqueceram-se de como criar uma boa trama, e de como é que as suas personagens agem de forma coerente dentro dela.

De repente todos morriam para serem ressuscitados no episódio seguinte; Felicity em vez de gracejar emaranhava a sua cara num nó de rugas e lágrimas horrendas; Oliver escondia segredos da sua equipa a torto e a direito, sem nenhuma explicação plausível (*), e agia como um déspota irresponsável, ditando as ações de Laurel, Thea e Felicity como se elas não tivessem escolha própria.

(*) “Para vos manter seguros” não é uma explicação plausível. Talvez no mundo real tal seja verdade, mas numa história ficcional, em que o conflito é necessário para existir um bom drama, as personagens nunca podem estar seguras. Portanto pergunto: para quê criar narrativa à volta desse ponto fulcral? Não faz sentido. A omissão dos planos por parte de Oliver só serviu para colocar a sua equipa em maior perigo ainda, derrotando todo o propósito dessa escolha.

E o vilão! Ugh, o vilão. Ra’s Al Ghul foi terrível como o big bad: conflito forçado e motivações desnecessariamente complexas, com uma personalidade quase inexistente, antiquada e difícil de levar a sério. Sente-se que foi feito o possível para tornar as ações de Ra’s compreensíveis e minimamente lógicas, mas tal não foi o suficiente. O argumento na maior parte dos episódios era terrível, sem estrutura e absolutamente preguiçoso, preguiçoso, preguiçoso.

Mas não me vou delongar mais neste discorrer negativo. Arrow também fez coisas bem! Maseo é talvez a personagem mais comovente que a série já criou, e Katana uma bem desenvolvida heroína (com um fato badass). Certas cenas de ação pareciam autênticos quadradinhos de BD (o A.T.O.M. a destruir aquele avião!!), e as cross-overs com o primo The Flash foram sempre bem-vindas e nunca em demasia.

A verdade é que aproximadamente 70 horas do mesmo tipo de televisão tornam qualquer coisa cansativa e repetitiva. Felizmente parece que a quarta temporada vai dar um 180º a nível criativo, com o humor acérbico a voltar, os aspetos mais superheróicos a manterem-se e um vilão imponente em Damien Dahrk.

Tudo isto para dizer: por favor equipa criativa de Arrow, parem de queimar tostas. Ninguém as quer e é um pecado deitá-las fora. Portanto, já sabem.

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