Shyamalan e O Último Airbender (2010)

Oh, Shyamalan, Shyamalan. Perdido nos meandros do teu próprio ego, destruído pela crítica mas ainda com a vontade de fazer filmes, e é isto que nos dás? Há realizadores que olham para o poço das suas carreiras e ganham alento de fazer melhor (ver: Tarantino após Death Proof (2007)), outros enfiam as carapuças e resignam-se ao prato que lhes foi dado. E, aqui, esse prato é uma bosta quente do ridículo, neste caso O Último Airbender (2010).

A história segue as aventuras de Aang, o jovem sucessor de uma longa linhagem de Avatars, grandes feiticeiros que conseguem manipular os quatro elementos clássicos. Para isso, Aang deve renunciar a sua infância para impedir a nação do Fogo de conquistar o resto do mundo com o seu estado ditatorial.

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Eu nunca vi a série de animação da qual o filme é adaptado (Avatar: The Last Airbender), daí não a poder comparar em termos narrativos ou interpessoais das relações entre as personagens. No entanto, algo que se nota são os mini-arcos narrativos que o cineasta enfia na demanda principal, pequenos capítulos que deviam servir para aprofundar o enredo ou motivar Aang e o seu bando de compinchas desinteressantes, embora sem muito sucesso.

Em vez disso, somos servidos a um infindável desenrolar de acontecimentos sem nexo, em que vilas são destruídas, dragões aparecem e desaparecem, personagens são capturadas, ocorrem traições, e depois duplas-traições; tudo com batalhas mágicas à mistura mas sem grande peso dramático.

Shyamalan diz que O Último Airbender é a sua tentativa em fazer um filme de crianças, mas tal como sucedeu em O Acontecimento (2008), o realizador não percebe que tal empreendimento não lhe desculpa o que é, indiscutivelmente, uma das piores regurgitações de Hollywood da última década. Confunde a despreocupação desse género infantil com ausência de propulsão dramática, pensa que os efeitos especiais vistosos substituem personagens interessantes ou que atirar uma enchente de ocorrências à cara do espetador perdoa a preguiça em criar um argumento com pés e cabeça.

Isto não é para dizer que as crianças não vão gostar de O Último Airbender: afinal de contas os efeitos são realmente bem conseguidos, e Shyamalan até orienta alguns momentos de boa ação quando se lembra de mexer a câmara em concordância com os movimentos das personagens, numa bela dança visual. O problema é que eu ainda hoje me lembro do primeiro Harry Potter, das desavenças do Woody com o Buzz em Toy Story, e passou-se um mero par de dias desde que vi O Último Airbender e só me recordo da cara de peido que o Dev Patel faz ao longo de uma hora e meia.

Ao fazer um “filme para crianças”, Shyamalan esqueceu de entreter, tornando uma épica saga de aventura no género de coming-of-age numa torpe e aborrecida longa-metragem sem cabimento algum. A ação é repetitiva, o diálogo atroz; não há nada em particular que salve O Último Airbender do seu próprio núcleo corrompido.

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