Shyamalan e Sinais (2002)

Sinais é a terceira longa-metragem de M. Night Shyamalan. Um filme sobre fé e acasos religiosos, suportados pelas discussões de uma família disfuncional. A viragem do milénio trouxe consigo uma data de filme apocalípticos como Dia da Independência (1996) e Marte Ataca! (1996), mas nenhum capturou tão bem o medo esmagador de uma invasão alienígena quanto Sinais (2002).

Mel Gibson (num papel que deve ter sido escrito para o Bruce Willis) faz de Graham Hess, um ex-padre episcopal que perdeu a fé após a morte acidental da sua mulher num acidente de carro. Consigo vivem os seus dois filhos Morgan (Rory Culkin) e Bo (a adorável Abigail Breslin), junto com o seu irmão Merrill (o então jovem Joaquin Phoenix). Um dia, Graham encontra círculos extraterrestres nas plantações adjacentes à sua eremita casa, e os noticiários explodem com notícias de uma invasão.

534677476587Aquilo que torna Sinais especial é a abordagem low-budget à narrativa: o filme centra-se na família Hess e passa-se 90% do tempo na sua modesta casa. Tudo o que sabemos à escala planetária vem das notícias televisivas que Graham & co. vão assistindo esporadicamente ao longo da trama, parcelando de forma inteligente a informação veiculada ao público. O suspense cresce à medida que os nossos heróis se vão sentido progressivamente mais claustrofóbicos, e Shyamalan, com a ajuda da trilha sonora opressiva de James Newton Howard, filma todas as cenas com uma precisão imaculada.

Por exemplo, a maneira como o realizador nos introduz aos aliens é brilhante. Primeiro só os ouvimos, ainda que com um vislumbre em silhueta de meio segundo. Depois desaparecem durante um período alargado até que os vemos em corpo inteiro pela primeira vez na televisão da família Hess, através de uma gravação de baixa qualidade numa festa de aniversário brasileira. Há quem considere esta cena horripilante, mas para mim é simbólica da economia visual que Shyamalan mostra compreender tão bem, e que torna a arremetida final dos extraterrestres muito mais impressionante.

Há uma sequência tenebrosa em que Graham vai investigar as plantações de noite: acompanhamos o ex-padre ao nível do ombro, sentimos a brisa nas plantas de milho roçar umas nas outras (o sound design aqui é belíssimo) e então, num crescendo sonoro diegético, ouvimos o clicar de uma das criaturas. A lanterna cai ao chão, parte-se; mas ainda conseguimos ver uma perna acinzentada a fugir pelo meio das gigantes espigas de milho.

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É aqui que Graham passa a acreditar no ataque alienígena e a temática da fé se adensa. Na realidade, Sinais tem uma mensagem pró-cristã por base, e explora-a de forma bastante competente em comparação com outros filmes do género. Grande parte deles usa a violência para despoletar empatia na audiência ou apropria-se de um modernismo efémero para contar as suas histórias supostamente intemporais.

Pelo contrário, Sinais torna a fé em algo tangível ao utilizar os extraterrestres para reunir esta família quebrada com a morte da sua mãe. Faz uso, um pouco abusivo, das coincidências (e/ou milagres) para resolver o seu clímax através da união física e espiritual das personagens, aliada do elemento purificativo e abençoado que é a água.

O final ata a narrativa num nó perfeito (talvez em demasia), mas o que interessa não é a maquinação narrativa sobre-controladora de Shyamalan; mas sim os momentos passados até lá. O realizador compõe tão bem os seus enquadramentos, emoldurando a família mais que uma vez nas várias divisões da casa, que a acaba por tornar metafórica do elemento matriarcal perdido.

Sinais é um filme meticuloso, contido, que expõe as personagens e temas com calma e deixa o espetador absorver pacientemente o desenrolar da narrativa. É um controlo que Shyamalan parece ter perdido após este filme, tornando Sinais na sua última aventura bem sucedida pelo mundo da realização.

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