Revisitando o final de Breaking Bad

Quando vi o episódio pela primeira vez, nos tempos remotos de 2013, não tinha bem a certeza do que esperar dele. Não foi inesperado, não foi fantástico. Mas foi o melhor fim para a melhor série de televisão de sempre.

Já lá vão sete anos, mas durante o episódio piloto, Walter White faz um discurso que viria a ser a pedra basilar de tudo o que se seguiria: “Química é o estudo da mudança. Como a vida, é a constante, é o ciclo. É a solução, e a dissolução. É a criação, e depois o declínio, e então a transformação. É fascinante, por acaso.”

Walter discursa em frente à sua turma de alunos que pouco vimos e conhecemos, ainda de bigode e cabeleira farta, com a sua vestimenta bege que parecia fundir-se com as paredes, símbolo da vida ordinária e desinteressante que Mr. White até então levava. Uns minutos depois, dá um 180º quando se vê confrontado com a sua própria finitude que, bem vistas as coisas, é a mesma de todos nós: a morte.

Uma nuvem negra que tudo devora; o que fazer quando sabemos que ela está próxima? Recorrer ao nosso génio inigualável de tudo o que é química e começar a cozinhar metanfetaminas e ceder todo o dinheiro à nossa família assim que esticarmos o pernil? Não era a minha primeira escolha, mas foi a primeira de Walter White e após de 62 horas de televisão perfeitas (em retrospetiva, até a primeira temporada atamancada se torna brilhante) não o posso condenar. Proporcionou a melhor aventura televisiva depois da ascensão e queda de Tony Soprano, conseguindo até, na minha modesta opinião, aprimorar as falhas desse primeiro grande drama.

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De Mr. Chips a Scarface, de Walter White a Heisenberg, de professor mal pago e emasculado a próspero narcotraficante, Breaking Bad tornou-se em mais do que um estudo de personagem, tornou-se numa peça de moralidade exímia, que estabelecia os seus próprios limites a cada novo episódio. Ultrapassava-se a si mesmo no seu sucesso (*), todas as semanas, todos os anos. Não foi uma viagem de montanha-russa, foi um autêntico parque de diversões repleto de adrenalina e tensão. Foi um fenómeno.

(*) O último episódio foi visto por 10.3 milhões de pessoas nos Estados Unidos. O primeiro episódio da série por 1.4 milhões.

Assim, não há análise que faça jus a este último episódio. Eu podia ser tão preciso quanto o relógio que Walter deixou em cima do telefone na gasolineira, mas não bastaria. Podia notar as escolhas da direção de câmara deste episódio (que foi realizado, nem mais nem menos, por Vince Gilligan), em como temos mais que uma imagem de Walter a afastar-se das cenas como um fantasma que já não pertence a este mundo; mas tal não bastaria. Podia falar de como o nosso protagonista começa o episódio com um casaco preto, mas acaba-o com um branco, mas a sua redenção não se reduz à escolha de cores do guarda-roupa.

Para mim, este final foi perfeito, porque mesmo sabendo que tudo acabou, que Walter morreu, eu ainda queria mais. Queria mais tempo com a Skyler. Queria mais tempo com a Marie e com a sua casa púrpura. Queria mais tempo com o Jesse. Queria mais tempo com Breaking Bad.

Podia obcecar com o facto de ainda não todos os pormenores do que se passou com a Gretchen, o Elliot e o Walter, ou quem era o Gus antes de abandonar o Chile, mas qual seria o propósito? Não havia nexo de saber tudo sobre todos porque, no fim, a história que importava era a do maior anti-herói de sempre, e essa foi contada da melhor forma imaginável.

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Lydia juntou-se à sociedade dos pés juntos (good riddance), Jesse vingou Andrea ao sufocar o Todd com as suas próprias correntes (maior ironia não existe), e Walter pôde redimir-se (**) ao matar o Tio Jack (da mesma forma que este aniquilou Hank, note-se). Vimos Marie, Walter Jr., Badger e Skinny Pete uma última vez. Estes últimos felizes na sua santa ignorância, os anteriores algo em paz com a sua macabra situação. Pelo menos Marie parecia mais saudável que Skyler, e todos sabemos qual era a mais neurótica das duas antes da saga do Heisenberg começar.

(**) Pelo menos consigo próprio, pois duvido que alguém vá sentir a sua falta para além de nós, os espetadores.

Todos seguem em frente, uns com mais cicatrizes que outros (físicas, psicológicas, ambas), mas todos colocam o ponto final na série. Ao contrário de Os Sopranos, temos algo definitivo e satisfatório da mesma maneira que foi satisfatório ver Vic Mackey no seu último momento em The Shield, ou o McNulty a olhar da ponte para Baltimore em The Wire. Dos quatro, não sei qual é o melhor, mas a morte de Walter é, talvez, o melhor pedaço de televisão que já vi. Porque, ao contrário das outras séries, desde o início que sabíamos que a nossa personagem principal ia morrer e mesmo assim tal não perdeu o impacto. Foi genial e emotivo, um golpe de estômago que me fez ir ver os primeiros momentos do episódio piloto pela centésima vez, e chorar um bocadinho por dentro.

No fim, Walter White apercebe-se que quando finalmente enfrenta a nuvem negra da morte, não é o orgulho nem o dinheiro nem as mentiras que fazem o seu legado. Não são as justificações mirabolantes para actos de horrorosos e vilanescos que equilibram a sua balança moral. É o confronto com o âmago do seu próprio ser, por mais negro que se tenha tornado, que o faz.

Still missing you, baby blue.

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