Guillermo del Toro e Mimic (1997)

Odeio insetos. Principalmente os que voam: o vibrar das asas dá-me arrepios terríveis e a minha voz sobe uma oitava inteira. Ora, a filmografia de Guillermo del Toro está cheia destes bichos manhosos; o realizador lança um olhar quase fetichista neles. Filma as escamas, os olhos graúdos e as pinças peludas com um preciosismo que lhe é singular, algo que é exacerbado pelos efeitos sonoros fantásticos ao mesmo tempo que são asquerosos.

Mimic (1997) é sobre a criação e mutação de uma nova espécie de baratas que começam a adaptar-se à forma humana, de modo a virar o tabuleiro aos seus predadores natos. A mutação virulenta espalha-se pelos túneis da cidade, fundindo-se na noite e nas multidões para devorar e assassinar os seus criadores e caçadores.

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O filme funciona dentro do género de terror em alguns pontos, reunindo um elenco de personagens mal desenvolvidas, autênticos estereótipos com motivações maquinadas e de carisma reduzido em locais obscuros e confinados, propícios a ataques violentos e mortes nojentas. Por outro lado também é um filme de ficção científica: o guião de Guillermo del Toro e Matthew Robbins analisa a ciência por detrás das mutações com interesse, apesar de esta carecer em detalhe, o que não é propriamente um ponto negativo.

Algo evidente em Mimic é a evolução temática de del Toro, que em todos os seus filmes lida de alguma forma com a corrupção moral do Homem assim como tópicos de degredo e excesso. Os monstros que cria formam paralelos com os humanos dos seus filmes e, neste caso, as baratas são claros espelhos de um mundo superpovoado por biliões de pessoas. As baratas adaptam-se para sobreviver antes de serem erradicadas, do mesmo modo que nós temos sobrevivido por milhões de anos ao derrubar vezes e vezes sem conta qualquer obstáculo que nos opõe.

A dinâmica entre estas duas formas de vida é evidente e bem explorada no filme. Del Toro mostra um olho para imagens tenebrosas e cantos escuros que não demonstrou em Cronos (1993), utilizando uma iluminação azulada pontuada com tons mais laranjas e quentes que viria a ser a sua imagem de marca. Esta particularidade visual contribui para o sentimento claustrofóbico que a segunda metade do filme, maioritariamente situada em túneis subterrâneos, pretende comunicar.

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O que é mais irónico em Mimic, que no seu núcleo trata de uma criatura a tentar ser algo que não é, é a maneira como retrata de forma ficcional a experiência negativa de Guillermo del Toro a trabalhar pela primeira vez num sistema de estúdio americano. O realizador, que desde então se provou apto neste meio comercial e direccionado para os olhos ávidos de uma barriga cheia, sentia-se mais confortável a trabalhar de forma independente e idiossincrática nos seus projetos cinemáticos.

Este controlo da produção de estúdio em Mimic levou a que a versão teatral original de 1997 não fosse propriamente aprovada por del Toro, que só em 2011 conseguiu mostrar a sua director’s cut ao mundo. É esta versão que eu aconselho para visualização, já que os floreados visuais particulares ao realizador não estão tão presentes na original, assim como algumas cenas dramáticas importantes para a condução emocional da narrativa.

Resta dizer que esta é apenas a sua segunda longa-metragem: na minha opinião o realizador mexicano demorou uns anos e um par de filmes até encontrar a sua voz e a definir o seu estilo peculiar de terror e de ficção científica. Sólido e com imagens assombrosas, mas com personagens pouco exploradas e um final que pouco deixa à imaginação, Mimic é outro passo mediano na construção da carreira de Guillermo del Toro.

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