Shyamalan e A Vila (2004)

The world moves for love. It kneels before it in awe.

O amor e, num sentido mais lato, a pureza do Homem, constituem a temática central de A Vila (2004), o quarto filme de M. Night Shyamalan. A história passa-se numa remota e pequena comunidade rural, que vive isolada do mundo. Um bosque imenso rodeia a vila e histórias de criaturas vestidas de vermelho assombram os aldeões, que repudiam a cor e se vestem de amarelo como proteção.

As cores são simbólicas das mais básicas emoções humanas, e a insulação aparentemente auto-imposta da aldeia, que confia num grupo restrito de Anciões para a liderar, sugerem um comentário político e/ou religioso que abrange o literal (as comunidades agrárias Amish, ou enclaves étnicos como as Chinatowns americanas) e o metafórico (a corrupção inerente ao ser humano, que se torna inescapável).

65786797807

Um dos truques na manga de Shyamalan é o de reenquadrar narrativas de género num realismo fundamentado, quase ortodoxo: em O Sexto Sentidoo realizador usa uma história de fantasmas para falar de traumas infantis, e a dificuldade do desapego; Sinais, por outro lado, aprofunda as falácias da fé num contexto de ficção-científica, em que a Terra é invadida por seres alienígenas, inexplicáveis.

Em A Vila, Shyamalan constrói uma espécie de Caverna de Platão, na qual vive esta imaculada sociedade, livre de ódios e invejas por ser tão largamente removida do mundo em geral. O conceito de dinheiro não existe, ou sequer de troca; os aldeões colaboram para o bem-estar coletivo, sem esperar recompensas ou castigos. Tudo parece idílico, o culminar de um qualquer ideal utópico dos Anciões que preferiram acreditar que o Mal é criado pelo Homem, embora não faça parte intrínseca dele.

No entanto, como o filme não poderia sobreviver sem conflito, assassinos hediondos ocorrem, mentiras são contadas, e ao longo de uma excruciante hora as personagens evoluem do arquétipo de boas/más para seres multifacetados, com personalidade própria. Os aldeões são caracterizados por tiques nervosos, ou por excentricidades ansiosas que demonstram o quão inpetos são socialmente. Kitty Walker (Judy Greer) quer propor-se em casamento sem saber se Lucius Hunt (Joaquin Phoenix) a ama; por sua vez, Ivy Walker (Bryce Dallas Howard, no seu melhor papel) parece a mais sensata de todos, apesar da sua incapacitante falta de visão.

Noah Percy (Adrien Brody), em particular, é a personagem que mais define a narrativa por ser o perpetrador do crime que serve como catalisador da história. Com um demarcado atraso mental, torna os seus actos ambíguos pelo seu fraco discernimento moral. Será que o Homem é um ser perverso por natureza, ou é a educação que o transforma?

58065

As questões que Shyamalan coloca são interessantes, e a alegoria é bem arredondada pela atmosfera criada através das imagens e da trilha sonora. James Newton Howard, o compositor, alia aos movimentos refinados de câmara – orquestrados pelo mestre Roger Deakins – uma ambiência lúgubre, enfatizando o restolhar das folhas com notas de violino aterradoras e poderosos graves que irrompem nos momentos de maior tensão. Deakins, por outro lado, afronta as situações de terror com a tonalidade dourada do filme, indivisível do Jardim do Éden que é a Vila.

Efetivamente, na história bíblica, Eva é expulsa por tomar do fruto proibido, sendo escorraçada para o mundo dos mortais. Aqui, Ivy não é renegada após experimentar o seu primeiro beijo; em vez disso é incentivada a procurar o exterior, aquilo que está para além dos seus sentidos primordiais. A sua cegueira é-nos de imediato apresentada como profética, tornando a demanda numa extensão da alegoria nuclear.

Mas como não podia deixar de ser, Shyamalan deita toda esta mestria narrativa e visual por terra com uma série de twists que são o seu infeliz ganha-pão. O problema agravante desta ferramenta passa pela maneira como o realizador opta por utilizá-la: não se limita a empregar um twist, teima em justificar cada curva narrativa ao mais ínfimo pormenor, sem deixar nada ao critério do espetador.

Em A Vila, principalmente, pedia-se uma certa sensibilidade no que toca ao desenrolar climático da trama, assim como à sua explicação (ou falta dela), que Shyamalan mostra não compreender, aflito como está por recontextualizar os 108 minutos de filme devido ao seu extraviado húbris.

O ritmo lento e inseguro pode também afastar os menos pacientes, embora ache que se adeque ao desenvolver meticuloso do enredo. As performances do extenso elenco acabam por ser desiquilibradas, com estrelas como Sigourney Weaver e Brendan Gleeson a serem desperdiçadas por completo graças à por vezes flutuante narrativa.

Assim, A Vila não deixa de ser uma experiência intrigante por parte de um realizador demasiado enamorado com as suas idiossincrasias, que é muitas vezes designada como um enorme falhanço. Eu tendo a discordar, porque apesar de todas as deficiências do argumento, o falhanço recai um pouco na audiência que espera um thriller de terror/suspense e não se apercebe do conto de fadas audacioso que lhe está a ser contado.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s