Cinderella e a magia da infância

Cinderella é um filme fabricado à medida para uma tarde preguiçosa de domingo. Colírio adocicado para os olhos, um pedaço de calorias CGI gordas para o descanso ocioso do fim de semana. O facto de ser um recontar do adorado filme de animação dos anos 50 significa um flagrante cash grab para a Disney, pouco preocupados com a constante reciclagem de histórias já fartas de serem contadas. Preferem realizar este tipo de arqueologia cinemática do seu próprio arquivo a criar novas personagens e contos, o que é repreensível, ainda que compreenda o facilitismo inerente a essa escolha.

Apesar de este ser um ponto necessário a ter em mente, não é um que torne Cinderella menos mágico ou apaixonante. Kenneth Branagh, o realizador do filme, opta por pegar na narrativa diretamente do conto de Charles Perrault (assim como do filme original da Disney), em vez de tentar um revisionismo forçado do conto de fadas infantil. Esta abordagem funciona quase na perfeição, pois toca no sentimento nostálgico dos adultos e pessoas que cresceram com o primeiro filme ao mesmo tempo que o torna igualmente acessível aos mais novos, ávidos por descobrir a história da donzela do sapatinho de cristal.

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Lily James protagoniza Ella, conferindo uma personalidade forte e decisiva à personagem principal que a torna mais identificável para as audiências modernas. Mesmo assim o argumento não a trata como uma mulher contemporânea: é sem dúvida vítima do reino medieval e patriarcal em que existe. Um pouco de revisionismo seria aceite aqui de bom grado; nenhuma rapariga deve crescer à espera de um príncipe charmoso para a vir resgatar da madrasta má.

No entanto, a determinação implacável de Ella numa sociedade que é impeditiva da sua vontade torna-se louvável: a sua sinceridade não é ingénua, mas sim simbólica da honestidade de um filme que não pretende redescobrir a pólvora ou elaborar uma nova fórmula. Cinderella não é nada nunca antes visto, quase literalmente graças ao original de 1950, mas é elegante e belo; um pouco vazio mas honesto.

O elenco com Cate Blanchett e Helena Bonham Carter (numa troca de papéis brilhante, pois seria tão mais fácil imaginar Blanchett como fada madrinha e não como madrasta) é sólido, e apesar de algumas das performances roçarem no exagero são verosímeis com o mundo mágico estabelecido por Branagh.

Cinderella vai emocionar os mais novos de uma maneira tão autêntica como a animação encantadora do filme que o antecedeu. Pode não ter tanto mérito por ser um recalcar de caminho já percorrido mas não é por isso que deixa de ser competente, pelo menos neste caso. Não há traços belos de frame a frame, mas o CGI colorido e sumptuoso é tão infantil (no bom sentido) quanto é capaz. Leve e breve, engraçado para ambos pais e filhos à procura de uma boa tarde passada em conjunto.

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