Kingsman e 007 para quê

O trailer do novo filme de Matthew Vaughn (Kick-Ass, X-Men: First Class) não lhe faz justiça. Com um tom e um score a dançar pela seriedade e pelo humor, mostra-nos o mínimo possível para vender o bilhete de cinema, forçando o lado cómico ingénuo da personagem de Taron Egerton (Eggsy, no filme) e desmascarando apenas o necessário dos melhores atores: Colin Firth e Samuel L. Jackson. Mas isto não é um filme de comédia, ou sequer um sério de ação.

Ora, Kingsman: The Secret Service é o filme de exploração mais bem mascarado que já vi.

Pontuado pelas beats narrativas usuais de adaptações das obras de Mark Millar (WantedKick-Ass) em que um jovem sem futuro e frustrado com a vida, normalmente de tez branca e nos seus 20s, descobre que pode ser algo mais na vida: um super-herói instituído numa sociedade secreta ou, neste caso, um agente à lá James Bond.

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Mas a verdade é que o filme é mais que a paródia excessiva de um 007 do século XXI. Por isso, ao invés de divagar numa crítica regurgitada com alguma despersonalização (*) vou tentar desconstruir o que tornou Kingsman tão bom, e da forma como a corrente temática que o filme trata com alguns subterfúgios o torna num marco importante para o cinema blockbuster. Pois a verdade é que Matthew Vaughn conseguiu realizar um filme de espiões tão bom ou melhor que a upper crust dos filmes de espiões, e com mais interesse cultural para a nossa sociedade ocidental que muitos deles.

(*) Adorei o filme e recomendo vivamente. Mais que isso é vender o peixe de uma maneira algo subjetiva que pode deixar um sabor amargo na língua dos mais conservadores cinéfilos, apologistas de cinema com suposta substância em camadas bem finas, a que filmes escandalosamente violentos como este não pertencem.

Taron Egerton protagoniza Eggsy, um ladrão de segunda classe órfão de pai e vitimado pelo padrasto, este uma caricatura machista que mal-trata a sua mãe. Tem um irmão bebé que vive pobremente numa casa suburbana encaixada num quarteirão padronizado de casas suburbanas. Parecem caixotes empilhados uns em cima de outros, como carga num porto, pronta a ser transportada. Não há identidade no bairro de Eggsy; a classe média-baixa dele foi para lá empurrada pelas camadas superiores, distintas nos altos prédios modernizados que o filme nos mostra em toda a sua sumptuosidade iluminada e colorida, que contrasta com a humidade castanha dos contentores habitacionais da família de Eggsy.

O filme apresenta-nos este status quo de uma forma bastante prosaica: é assim que as coisas são e nada nem ninguém se esforça por as alterar. Eggsy nasceu para aquela sociedade e é nela que vai ter que viver e prosperar (ou não), servindo-se do seu Q.I. elevado ou sucumbindo (o mais provável) ao mundo do crime perpetuado por ladrões mesquinhos como o seu padrasto. O ciclo vicioso é-nos mostrado sem reservas e é precisamente no momento em que Eggsy é aprisionado, pronto a ser lançado para os seus primeiros meses de cadeia, que Colin Firth (de fato, perfumado e a transpirar uma nobreza snob) aparece para o salvar.

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A dinâmica é óbvia: guerra das classes, imobilidade social, etc, etc; mas é contrabalançada pelos momentos de pura ação escandalosa, que não precisa dos baldes de sangue de filmes mais recentes (que, através deles, pretendem chocar a audiência que já está mais que entorpecida a xarope de milho vermelho) para ser espetacularmente egrégia. Esta dicotomia é aprofundada pela sociedade secreta dos Kingsman, gentlemans de alta-classe, snobs mas de bom coração (a maior parte pelo menos), talhada para livrar o mundo do seu núcleo podre e defender os mais necessitados.

O vilão do filme é Valentine (Samuel L. Jackson, divertindo-se à brava), um tipo à Steve Jobs, com pontadas de Al Gore, preparado para dizimar 99% da população do planeta (excepto, claro, a mais alta das classes: os políticos e com nobres antepassados $$$$) de modo a prevenir o aquecimento global. Este lado outré do plot vai de encontro aos filmes mais antigos de James Bond (Roger Moore, não Sean Connery) e estabelece uma clara cisão entre os mais recentes (do Casino Royale para a frentee mesmo a saga do Jason Bourne), ao mesmo tempo que excede ignominiosamente qualquer precedente estabelecido por este tipo de filmes.

Eggsy é então seleccionado para fazer parte da sociedade secreta, ou pelo menos do seu programa de selecção, onde encontra putos ricos e mimados admoestadores, a contrastar com os gunas de rua do seu bairro, igualmente pestilentos nas suas ações. Matthew Vaughn parece tomar partido desta classe média que vive no limbo daqueles que roubam por prazer e daqueles que roubam por necessidade, embora essas duas vertentes não sejam mutuamente exclusivas.

Por outro lado, o Harry Hart de Colin Firth é caracterizado pela sua preocupação com este sistema viciado, advogando não a separação dos dois mundos mas a sua união e trabalho coordenado para algo melhor. A questão central de Kingsman é talvez a definição da corrente sociedade ultra-capitalista (colorida no filme pela ultra-violência que faria Alex DeLarge arrepiar). A destruição perpetrada por Valentine é feita através da utilização de sinais emitidos por telemóveis, talvez o instrumento mais anti-social que hoje existe, estabelecendo barreiras artificiais ao mesmo tempo que, paradoxalmente, as parece quebrar. O seu uso é propositado e gritante da questão nuclear do filme.

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Talvez a cena mais sonante é quando Harry Hart se encontra com Valentine na sua mansão tipicamente americana, faustosa e magnânima no quase obsessivo preenchimento de todos os cantos. Os dois sentam-se à mesa para jantar e são servidos no característico prato oval e prateado que, quando descoberto, revela uma taça de… McDonalds. Big Macs, Cheesburgers e batatas fritas, vermelhas de ketchup e marketing prontas a serem devoradas e absorvidas minutos depois pelos snobs que estamos mais acostumados a ver trincar porções diminutas de frango e peixe caríssimo.

Kingsman, tem esta luta de classes no seu coração, mas é também um testamento e homenagem a todos os filmes de espiões com que Matthew Vaughn cresceu. No entanto, descarta qualquer subtileza ou charme e troca-os por violência desmedida e cabeças a explodir em cores variadas e musicais. As cenas de acção são das melhores, coreografadas pela arma secreta australiana Bradley James Allen (responsável também pelas lutas em Scott Pilgrim Kick-Ass) e a realização imoderada de Matthew Vaughn exacerba-as de uma forma mordaz. A cena da igreja é já um clássico e certamente vamos ouvir falar muito dela daqui para a frente.

Os atores estão fantásticos, os visuais extremamente bem compostos, o score de Henry Jackman um excelente throwback às composições do espião britânico e a dissertação exploradora das circunstâncias sociais, ambientais e monetárias da actualidade tornam Kingsman no melhor filme de Matthew Vaughn assim como um dos filmes pop mais bem pensados dos últimos tempos.

Uma sequela não é precisa mas, se vier, aqui a antecipamos.

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