A Luz da Terra Antiga e a efemeridade da imagem

A Luz da Terra Antiga é uma curta-metragem de 2012, realizada pelo fotógrafo e professor Luís Oliveira Santos. Na curta, o filmógrafo (como se autodenomina, visto que afirma «ainda não entender bem o que é um realizador») acompanha o fotógrafo Duarte Belo nas suas viagens pelo país lusitano, sob o âmbito do projecto “Portugal Património”.

Apesar desse projecto ser o pretexto das viagens, o filme documental incide num trabalho anterior de Duarte Belo, “Portugal, Luz e Sombra”, no qual este recriou as fotografias do geógrafo português Orlando Ribeiro nos mesmos locais, posições e pontos de vista das originais. Esta refotografia parece ir de encontro da obra do americano Mark Klett, e de projectos portugueses recentes como “Álbum de Família” de Nelson D’Aires. É um tema interessante agora que este meio artístico já teve mais de um século para se desenvolver assim como todas as suas vertentes associadas, deixando um espólio enorme de tanto pessoas como locais retratados e fixos em determinado tempo que quase clamam por serem novamente capturados.

Mas o trabalho de Duarte Belo é só um pretexto para Oliveira Santos falar deste tema que também lhe é querido, visto ser ele próprio um fotógrafo. Diz, num pequeno encontro que houve no cinema do Dolce Vita de Ovar (*), ter começado a sua carreira com câmaras de grande formato, que lhe impingiam uma religiosidade e disciplina ímpar durante o processo fotográfico. A existência de três peças mecânicas interligadas e a dita captura requeriam uma intelectualização da fotografia que é raro hoje acontecer no mundo digital. O mais próximo de tal disciplina é a preocupação com o tamanho do cartão de memória, e este cada vez se expande mais com o avanço da tecnologia, tornando esta questão essencialmente obsoleta.

(*) No qual passaram a curta na íntegra, organizado pelo sempre dinâmico e efusivo CineClube de Avanca, nomeadamente pelo seu presidente António Costa Valente e colega Rita Capucho.

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Deste modo, a sua própria relação com a fotografia permitiu identificar-se com o projecto de Duarte Belo, e graças à sua amizade foi-lhe possível a realização desta curta-metragem. Esta é composta por momentos de quase-entrevista, em que Duarte Belo fala acerca do seu processo e a mulher de Orlando Ribeiro preenche algumas lacunas acerca do trabalho do marido, complementando-se perfeitamente e permitindo uma visão dupla mas coalescente.

Por exemplo, ao passo que o geógrafo demorou 50 anos a criar o seu espólio fotográfico, Duarte replicou-o em 18 dias. As diferenças de transportação é algo que Oliveira Santos ressalva: 50 anos atrás caminhava-se e não havia tantos pontos de acesso aos locais remotos e não-tão-remotos fotografados por Orlando Ribeiro, que também usava cavalos e mulas. Por outro lado, hoje usa-se, obviamente, o carro, e mesmo para zonas do interior existem novas estradas que permitem um recalcorrear mais destro do terreno.

Algo tocado subtilmente no filme é a forma como os locais mudaram ao longo do tempo (ou não). A opinião parece ser ambivalente mas existe um comentário incisivo à industrialização do litoral do país e da negligência pela zona interior. Os interlúdios visuais do filme mostram a sobreposição/dissolução da foto original de Orlando Ribeiro pela mais recente de Duarte Belo, explorando a sua perfeita integração mútua. Neles, podemos notar que os locais do interior continuam invariavelmente iguais, tirando ou pondo o desgaste natural das várias décadas que se passaram entretanto, enquanto nos do litoral torna-se quase impossível de identificar semelhanças em alguns casos.

Nota-se a mão severa do homem mas ao mesmo tempo a maneira como serve para adaptar tudo à sua maneira e ao seu tempo; as gerações são sempre distintas entre si assim como os próprios propósitos urbanos e geográficos, ou seja, porque não se há de construir e reconstruir estruturas, modificar espaços ou simplesmente destruí-los?

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Inicialmente realizado com um propósito pessoal e de documentação, o filme foi então mostrado em diferentes festivais de cinema e curtas quando Oliveira Santos contactou António Costa Valente por umas questões de direitos de autor quanto às músicas usadas na curta (**). Recebeu então várias menções honrosas e acabou por ser nomeado para melhor curta-metragem em formato de documentário dos prémios Sophia da Academia Portuguesa de Cinema, perdendo para Raúl Brandão Era Um Grande Escritor, do incomparável João Canijo.

(**) A versão final é pontuada por Brahms, que se oferece incrivelmente bem ao ritmo de montagem do filme.

Simples e precisa, A Luz da Terra Antiga é uma curta-metragem inspiradora e distinta, com um ar low-budget aliciante e uma ambição intelectual de louvar para o primeiro projecto cinemático de Luís Oliveira Santos. Neste momento encontra-se a trabalhar, desta feita, num filme de ficção acerca da reprodução do real tanto no cinema como na fotografia e, de um modo lato, em todo o mundo imagético.

É uma temática interessante e, por aqui, espera-se que corra bem.

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