A Visita – Divertido, Assustador e Impressionante

De modo lato, o cinema é sobre relações complicadas, relações não resolvidas. Sejam elas de um qualquer par romântico à procura de se reconciliar ou, no caso de A Visita, laços familiares quebrados indefinidamente. Este tipo de conflito permite-nos investir emocionalmente nas personagens, nas suas relações e interações umas com as outras. Torna o filme mais pessoal, e portanto mais eficaz.

A Visita é a longa metragem mais recente de M. Night Shyamalan, outrora admirado como o próximo Spielberg, agora ostracizado pela comunidade cinéfila devido à sua carreira descarrilada por falhanço, atrás de falhanço. Aqui, o realizador conta-nos a história de um par de irmãos que vão visitar os seus avós maternos pela primeira vez, numa remota habitação da Pensilvânia. Quando lá chegam, descobrem que o casal idoso não é o que parece, e a probabilidade de voltarem a casa diminui a cada dia que passa.

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Shyamalan construiu a sua reputação através de argumentos originais e densos, com grandes momentos emocionais de incomparável catarse. A sua obsessão com famílias destroçadas e pais ausentes conferia uma textura distinta aos seus enredos, que apesar dos elementos supernaturais como fantasmas e alienígenas nunca deixavam de parecer realísticos e de pés bem assentes no chão. O humor era escasso, com a maior parte dos filmes a exibir um tom ultra-sério que mais tarde se tornou insustentável, e algo auto-paródico. Shyamalan perdeu o tacto com a audiência, perdido no seu ego inflacionado pela crítica, posteriormente demolido em pequenos pedaços indistintos.

Shyamalan era uma sombra de si mesmo. Cadavérico, inexistente.

Ora, ao contrário do que seria de esperar, A Visita é um excelente filme. Curto, intenso, eficiente. Encontramos outra família quebrada: a mãe de Rebecca (Olivia DeJonge) e Tyler Jamison (Ed Oxenbould), a dupla de irmãos protagonista, deixou de falar com os seus pais, após um destrutivo conflito familiar. Quinze anos passados, e o seu marido abandonou-a; Rebecca e Tyler demonstram, ao longo da trama, ainda estar bastante afetados com a perda do pai. Esta dinâmica carrega o peso dramático do filme, exacerbado pelo confronto entre os jovens irmãos com a demência perturbadora dos seus avós, símbolos andantes da Morte.

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Mas antes que nos percamos neste turbilhão negativo de emoções, devo referir que A Visita é, acima de tudo, uma comédia. Sim, após algumas supostas tentativas extraviadas, Shyamalan finalmente cedeu ao seu comediante interior para nos oferecer uma honestamente hilariante comédia familiar, com mais do que uma incómoda dose de terror nas orlas da empreitada.

Ao afastar-se da seriedade ridícula das suas aventuras frustradas, o realizador esforça-se para surpreender a audiência, seja com o humor de situação entrelaçado com o terror da doença psíquica dos avós, ou com os pequenos raps de Tyler, que sonha tornar-se um artista reconhecido como o seu homónimo Tyler, the Creator. Mais do que em qualquer filme do género que vi recentemente (It Follows incluído), as personagens parecem verdadeiramente humanas: suficientemente imperfeitas para terem um arco narrativo, mas sem nunca deixarem de empolgar com um sorriso ou uma lágrima.

Emoção; é o que A Visita oferece, mais do que qualquer outra coisa. E nisso sucede, sem se esquecer de espantar com enquadramentos sugestivos, ou com o uso criativo da banda e efeitos sonoros. Digo isto porque A Visita é um filme de found footage, hoje em dia odiado pelo comum espetador por estragar completamente a coerência interna estabelecida pela obra. No entanto, aqui, Shyamalan usa a ferramenta em seu proveito ao tornar Rebecca, que controla a câmara, numa aspirante a cineasta, justificando toda a masturbação artística de planos lindíssimos ao fim da tarde, assim como a filmagem de momentos chaves do enredo.

Mas tudo isto não resultaria se o twist final (que com Shyamalan é um dado adquirido) deitasse por terra toda a boa fé construída ao longo do filme. Felizmente, o torção narrativo chega antes do clímax natural da história, permitindo às personagens aclimarem-se ao novo status quo, assim como à audiência, despoletando um intenso terceiro acto com momentos violentamente nojentos. Isto é, fraldas empanturradas de merda são atiradas pelo ar.

Assim, A Visita é uma lufada de ar fresco de terror original num ano demasiado rançoso para o seu próprio bem. Divertido e assustador, não deixa nunca de impressionar com o humor das suas personagens, com o engenho visual das suas cenas e, especialmente, com a catarse emocional dos momentos finais. Vão ver. Vale a pena.

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