Os Vampiros Cool e a Rapariga Solitária

Já alguma vez viram um filme western com vampiros? Iraniano? Com uma pinta de disco dos anos ’70? Porque é isso que A Girl Walks Home Alone at Night (*) é. Uma mistura destes díspares géneros, com a sensibilidade coming-of-age de Richard Linklater imiscuída no seu estilo cool à la Jim Jarmusch, ele próprio realizador de outro filme de vampiros semelhante, Only Lovers Left Alive (2013).

Em A Girl, uma Rapariga caminha sozinha durante a noite. Enverga um véu típico sobre uma camisola listrada, semelhante às do Wally, e persegue as pessoas solitárias da deserta Bad City, em busca de vítimas. A cidade tresanda a morte e desespero: não há polícia; haxixe e ecstasy são trocados e vendidos sem supervisão, e uma vala é aos poucos sobrelotada com corpos mortos a apodrecer sem ninguém reparar. A Rapariga caminha e observa, à medida que a cultura iraniana choca com o pop americano, sangue é derramado, e ela própria se apaixona por um rapaz, Arash.

(*) A tradução em português, apesar de fiel ao título original, é estupidamente longa, pelo que vou optar por abreviar a denominação inglesa. Uma Rapariga Regressa de Noite Sozinha a Casa não contribui para uma boa leitura.

867865634

Este tipo de cinema de terror com vampiros teve um sólido e refrescante ressurgimento nos últimos anos, com a comédia Vamps (2012) de Amy Hackerling num espectro mais ridículo, junto da brilhante sátira What We Do in the Shadows (2014), e o já referido Only Lovers Left Alive na ponta oposta. A Girl é semelhante a este último no seu tratamento estético da narrativa, prontamente acusado do perjúrio style over substance por alguns, e talvez com razão.

A realizadora iraniano-americana Ana Lily Amirpour parece mais importada com o estilo desta sua primeira longa-metragem, desde a escolha do preto e branco até ao uso impecável de música, que alterna entre a trilha sonora original dos Federale, uma banda de spaghetti western polaca, e a elasticidade pop dos White Lies, do que com o propósito da existência das personagens e das suas interações.

De facto, assistimos a long-takes atrás de long-takes belíssimos, cobertos com o céu negro da Califórnia, sem grande preocupação com o ímpeto narrativo. A certo ponto, a Rapariga rouba uma prancha de skate a um miúdo da cidade, e de imediato se coloca em cima dela. A imagem que se segue, da Rapariga a deslizar sobre o skate pelas ruas abandonadas de Bad City (parecendo levitar como os vampiros dos filmes clássicos de outrora) é hipnotizante, mas oca.

867967

No entanto, é impossível não ficar fascinado com A Girl Walks Home Alone at Night. O filme é brincalhão e quase experimental na sua mistura de tons, aproveitando os enquadramentos das stand-offs western para as cenas entre a dupla apaixonada de protagonistas; aqui, o amor é um combate, mas este não é o verdadeiro obstáculo. Tanto a Rapariga como Arash se sentem prisioneiros no mundo em que habitam: Bad City é uma sanguessuga que se alimenta do sangue dos seus habitantes, e da qual a Rapariga e Arash são ferramentas resignadas.

Arash é um dealer por obrigação, e a Rapariga suga a vida de criminosos que corrompem a vida na cidade. A maior parte deles são homens, violentos e misóginos que oprimem mulheres como Atti, uma prostituta brutalizada pelo seu proxeneta. Este subtexto feminista corre de acordo com o choque de culturas: o pop americano é visto como uma libertação juvenil dos alicerces culturais iranianos, que embora não sejam diabolizados, surgem como entraves às vidas dos nossos protagonistas.

Infelizmente, e apesar de rica em pistas visuais, esta temática é sub-explorada por Amirpour, que acaba por não nos oferecer muito na veia da narrativa tradicional, terminando o filme numa ponta ambígua sem um clímax decente. Ainda assim, A Girl transporta-nos para um mundo alienígena, repleto de personagens tridimensionais e cativantes, com momentos de pura transcendência visual.

A supra referida cena do skate é apenas uma, e quase todas elas envolvem a soundtrack (escolhida a dedo pela realizadora) de uma ou outra forma. Desde raves de halloween a pescoços degolados, A Girl nunca falha em surpreender com o seu enredo não convencional, que não se apropria dos mitos vampirescos como Only Lovers Left Alive nem ousa em os desconstruir, como What We Do in the Shadows.

Em vez disso, afasta-se completamente das características narrativas deste tipo de histórias, preferindo relatar a sua veia singular de disforia pós-adolescente com vampiros na orla da trama. Um filme para os curiosos e para os amantes deste tipo de cinema, diferente e confiante na sua ousadia estética.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s