Vai Seguir-te, ou como virar celibatário

A melhor personagem de Vai Seguir-te (It Follows, no original inglês) é a sua trilha sonora. Composta por Richard Vreeland, aka Disasterpeace, a soundtrack cria uma ambiência de terror sem igual, perturbando psicologicamente com as suas arremetidas sonoras, com o seu retombear incessante, que nem o infinito caminhar do titular monstro do filme, It.

Esta synth harmoniosa de Disasterpeace remete aos horror flicks dos anos 80 de John Carpenter e de Wes Craven, num estilo throwback que captura a essência dos originais e, na minha humilde opinião, os excede. Nota para compositores de música do género: o que conta não são as build-ups intensas, de sons altos e bruscos. O que conta é a melodia desses mesmos sons, a forma como, ao longo do filme, ela se vai construindo e imbuindo na mente dos espetadores, tornando-se tão memorável quanto aterrorizante.

Já o filme, ainda que original e tecnicamente impecável, fica aquém da atmosfera construída pela trilha sonora.

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Não me interpretem mal; It Follows é um filme fantástico, e devem sem dúvida ir vê-lo ao cinema. O absurdo da sua premissa, em si, vale o bilhete: Jay (Maika Monroe) é raptada após um encontro sexual e acorda atada a uma cadeira de rodas. O seu então companheiro pede-lhe desculpa pela situação, explicando que acabou de lhe passar uma doença sexualmente transmissível, e que a partir daquele momento será perseguida por uma criatura até voltar a ter sexo com outra pessoa. Esta entidade monstruosa assume a forma de um qualquer ser humano, caminhando a passo de caracol até alcançar a sua presa, altura em que a esventra violentamente.

David Robert Mitchell, o realizador e argumentista do filme, foi esperto em contar a sua história desta maneira. O conceito de DSTs examinadas sob a alçada de um filme de terror tem enorme importância social nos dias que correm, e ainda mais progressivo é do ponto de vista de uma personagem feminina a explorar a sua latente sexualidade.

Porque, de facto, Jay é incentivada a ter sexo com outras pessoas de modo a lhes transmitir a sua praga venérea, como se a doença permitisse à mulher usufruir dos prazeres carnais sem ser recriminada pela sociedade. Robert Mitchell é bastante crítico neste ponto, confrontando a dualidade sexual do homem e da mulher, assim como a distinção entre machos alfa e beta que domina a nossa cultura ocidental.

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Esta temática é aprofundada com mestria, e as sequências de terror do filme são exacerbadas pelas panorâmicas de 360º que acompanham o lento caminhar de It até que as personagens se apercebam da sua presença. É um exercício ponderoso e de puxar os cabelos: nós, a audiência, sabemos que a criatura chegou, assistimos, pé ante pé, à sua aproximação durante longos segundos, ao mesmo tempo que Jay conversa despreocupadamente com os amigos.

Mais que um desinspirado jump scare, esta construção paciente de total horror é o que distingue It Follows da ralé insípida de remakes (Poltergeist) e sequelas (Insidious 3) que nos afronta os ecrãs ano após ano. Robert Mitchell executa o seu conceito com maturidade e precisão. Deixa a tensão crescer e crescer, através dos seus long-takes e meticulosa coreografia de cena, cedendo uma quantidade considerável de gore aqui e ali só para alimentar o pavor do espetador.

Mas a verdade é que houve algo em It Follows que não me caiu bem. Por entre a temática bem explorada, a cinematografia de tirar o fôlego e as sequências de terror bem realizadas, um elemento central da mestria cinemática falha redondamente. Falo da lógica interna, e da credibilidade das personagens. O clímax perde-se na burrice excêntrica destes engenhos humanos, e termina da forma mais ambiguamente inepta que o conceito central permitiu.

É uma pena, porque de resto não há nódoa que se encontre em It Follows, um filme inventivo, horripilante e singularmente belo como há anos não chega às salas de Portugal. Impressiona, e promete assombrar gerações e gerações de adolescentes nos anos vindouros.

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