Shyamalan e O Acontecimento (2008)

Coincidência (in)feliz: este filme passou ontem na FOX portuguesa, para desgraça de todos os que o viram. Até agora, tenho defendido a obra de M. Night Shyamalan mesmo quando a opinião geral parece cair para o negativismo impenitente, como se A Vila (2004), ou A Senhora da Água (2006) fossem afrontas pessoais à sua audiência (spoiler alert: não são).

Já O Acontecimento oferece 90 minutos em que nada, realmente, acontece. Pessoas caem do céu e o Mark Wahlberg fala com uma planta, mas o que é que ganhámos com isso? O que é que podemos dizer da história, ou das personagens, hora e meia passada a assistir a um pseudo-apocalipse, que não é mais que um borbulho num acesso de sarampo?

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Quer dizer, apesar de toda a demência ridícula da narrativa, a mensagem que quer passar é bastante clara: natureza vs poluição. Na Terra de O Acontecimento, as plantas estão tão, mas tão fartas da sujidade ambiental propagada pela nojenta raça de humanos, que viram assassinas. Os bichos verdes libertam toxinas, inibindo o sentido de auto-perseverança humana, que os leva a suicidarem-se da forma mais prática e sangrenta possível.

Algo que devemos ter em mente ao ver esta bagunça corriqueira, é que a intenção de Shyamalan, como realizador, era a de fazer um filme de série-B “excelente”. Ora, o que o cineasta não percebe (nem quase 10 anos após ter construído o thriller perfeito em O Sexto Sentido (1999)), é que um filme de série-B não se faz: ele acontece. Muito menos se tenta produzir tal homenagem com uns exorbitantes 46 milhões de dólares, como se fosse possível recriar as condições económicas particulares àquele género de cinema com um orçamento de Hollywood.

O pior é que essa vontade nota-se ao longo de todo o filme: Mark Wahlberg e Zooey Deschanel, os protagonistas, não estão realmente a representar; estão, em vez disso, a ler as falas do guião com um presunto na boca e outro nas mãos, símbolos do berrante overacting que lhes foi certamente incutido pelo realizador.

E vamos ser sinceros: nós rimo-nos à farta de maus atores a suarem no puro e duro para parecerem sérios e a falhar redondamente nesses tais filmes de série-B (Bruce Campbell no início da carreira, por exemplo, é um autêntico deleite), mas quando acontece o contrário? Quando atores de Hollywood por alguma razão são forçados a representar “mal”? Só sai merda em corrente daí para fora. Não há graça, só um embaraço total e transparente que retira o espetador da história e o pontapeia de novo para o mundo real.

Não há nada de redentor em O Acontecimento. Shyamalan ainda atira uns enquadramentos engraçados para ver se cola mas não têm substância, são solitários numa maré de realização-para-TV que chega a irritar por ser tão aborrecida. O seu domínio preciso na construção de cenas desapareceu por completo. É-me descabido como é que o gajo pensou que fabricar um “filme de série-B” desculpa todas as falhas narrativas, personagens indiferentes e efeitos parolos do que podia ser um thriller competente.

O Acontecimento é mesmo mau. Tão mau que nem cómico é, nem ao tentar ser uma homenagem/sátira a um estilo cinematográfico que não se replica à martelada, nem com o suposto calibre de uma produção de Hollywood. Simplesmente é, vápido, desenxabido, sem interesse.

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