Shyamalan e O Sexto Sentido (1999)

Este foi um dos dois filmes que me arruinou a infância. A cena em que Cole vai à casa de banho durante a noite apenas para encontrar outra pessoa que não a mãe na cozinha ainda hoje me dá suores frios. O facto do corredor de minha casa ser assustadoramente semelhante ao do filme não ajudava; alucinei muitas vezes que a luz da cozinha estava acesa e alguém assobiava lá dentro quando tudo o que queria era mijar e voltar para a cama.

Estou com pele de galinha só de falar disto.

O Sexto Sentido (1999) é a primeira longa-metragem de M. Night Shyamalan, cujo próximo filme A Visita estreia em Setembro. A história é sobre Cole (Haley Joel Osment), uma criança que consegue ver os mortos. Um psiquiatra infantil, Malcolm (Bruce Willis) tenta ajudá-lo a ultrapassar este trauma, ao mesmo tempo que lida com os seus problemas domésticos: a sua esposa está cada vez mais distante após um incidente violento com um ex-paciente de Malcolm, e os dois praticamente não se falam.

63737Só que não! SPOILER ALERT para quem andou a dormir durante dezasseis anos: Malcolm também está morto. Este fantástico twist chega nos últimos minutos do filme com uma montagem desconcertante que nos mostra pontos-chave da história, nos quais é óbvia a distância física entre Malcolm e o resto do mundo. Com efeito, não o vemos a interagir com nada nem ninguém para além de Cole, mas a edição e composição dos planos é tão perfeita e bem construída que nem chegamos a colocar essa hipótese até aos momentos finais.

No entanto, o mais importante é que o twist não ‘faz’ o filme. Isto é, não o torna melhor retroativamente; influencia a nossa opinião mas apenas porque é construído através da história fantástica de O Sexto Sentido; é uma consequência direta da sua habilidade em nos prender às personagens e à narrativa. Só ao ver o filme pela segunda vez é que consegui apreciar por completo as pistas subtis que Shyamalan habilidosamente inclui sem estragar o desfecho agridoce da trama.

Por exemplo, há dois momentos em que Malcolm tenta sem sucesso abrir a porta da sua adega subterrânea, não consegue porque está trancada. Shyamalan coloca a câmara muito perto da maçaneta vermelha, com um ênfase no tronco de Malcolm e na sua mão. O contacto entre os seus dedos e a porta é fulcral: estamos habituados a que os fantasmas sejam incorpóreos, e como tal atravessem o meio físico. O facto de Malcolm conseguir tocar em algo é importante, não só porque funciona como uma distração, mas porque estabelece um elo emocional quando o psicólogo se apercebe que está morto e é revelado à audiência que a porta não estava trancada, mas sim bloqueada por uma mesa com livros que Malcolm optou por ignorar.

performance de Bruce Willis é fantástica: carrega uma melancolia existencial ainda maior que a de Butch em Pulp Fiction (1994), e as cenas que partilha com Olivia Williams, que faz o papel de esposa, são devastadoras. Willis demonstra uma capacidade para exprimir as suas emoções não só com o diálogo, mas com o seu tom de voz, com as suas expressões faciais e rigidez corporal. Nunca gostei tanto do ator como neste filme.

Shyamalan cria uma atmosfera de suspense, não só através das suas imagens despretensiosas e assustadoras, mas também com a trilha sonora misteriosa e a representação já clássica de Haley Joel Osment como Cole. O realizador nunca escreveu um argumento melhor que este até à data, e os seus twists só pioraram desde então.

Em jeito de conclusão, talvez só me aperceba agora o quanto O Sexto Sentido me afetou. Como já disse, passei muitas noites em branco por causa do filme, com medo de ir à casa de banho durante a noite ou de me fecharem a porta do quarto antes de ir para a cama. E se de repente acordasse com uma rapariga a vomitar para cima de mim? Brrr. Vi o filme quando era criança e vivi-o através de Cole, que tinha aproximadamente a minha idade. Agora já não me identifico, mas lembro-me desse tempo em que o sobrenatural era uma possibilidade real, não um hipotético longínquo, e não posso deixar de apreciar a mestria com que Shyamalan criou este mundo aterrorizante e esta história assombrosa.

Agora vou ali esconder-me um bocado debaixo dos cobertores.

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