Gonçalo Waddington e O Filme da Treta

Segundo o jornal Público, apenas 5% dos espetadores portugueses assistiram a produções nacionais em 2014. Há quem diga que o cinema português é uma arte moribunda, destinada à cultura de nicho que se perpetua com os nossos melhores realizadores contemporâneos, e que se auto-destrói com a regurgitação de criaturas hediondas como Sei Lá (2014) e Ruas Rivais (2014).

Os críticos odeiam tudo e o que não odeiam não chega às salas, ou está lá tão pouco tempo e em tão poucos ecrãs que a vontade de os ver dissolve-se face aos contratempos do dia a dia. É um sistema retrógrado que se certifica que os piores filmes estão on demand, ao passo que os melhores passam completamente despercebidos. O público português perde fé, e talvez não haja gente tão desinteressada no seu cinema como a nossa.

Mas se não há incentivo, que culpa temos nós?

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Há uns dias tive o prazer de assistir a uma mesa de conversa com a participação do Gonçalo Waddington, no primeiro Festival Literário de Ovar (já com segunda edição confirmada!), que veio promover o lançamento do seu livro Albertine, o Continete Celeste. Embora a discussão se centrasse no tema “literatura como forma de libertação do egoísmo”, Waddington não teve quaisquer papas na língua para falar de assuntos como os migrantes e a questão da Síria, sendo brutalmente honesto apesar do seu sempre presente sentido de humor.

A certo ponto perguntaram-lhe se era possível, como escritor, chegar a um público alargado sem escrever dentro dos géneros mais mainstream e comerciais. A questão foi colocada de uma forma enviesada que pressupunha a necessidade de um autor agradar a toda gente para ser bem sucedido na sua profissão, uma noção que a Waddington se pareceu demasiado com o argumento trocado por Leonel Vieira (realizador e produtor do filme O Pátio das Cantigas) e Luís Urbano (produtor d’As 1001 Noitesnesta excelente reportagem do jornal Público.

Aqui, os dois artistas mostram filosofias opostas no que toca à distribuição do respetivo filme, com as suposições generalistas de Vieira a entrarem em choque com a cultura de autor da longa-metragem de Miguel Gomes. Waddington coloca-se firmemente do lado de Luís Urbano (*), defendendo o seu filme como fruto de expressão artística face ao comercialismo nu de Leonel Vieira.

A pergunta colocada a Waddington é um espelho menor desta dicotomia entre duas vertentes do cinema português: o comercial, e o dito de autor. Ambas carregam consigo diferentes estigmas que alienam diferentes audiências, mas hoje em dia a verdade-mor é que nem uma nem outra interessa ao comum português, quando neste devia ser fomentada a vontade de ir ver tanto um Pátio das Cantigas como um 1001 Noites.

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Como contraponto, a 23 de Agosto deste presente ano, O Pátio das Cantigas tornou-se o filme português mais visto de sempre. Pelos portugueses, isto é. Não falo do original de 1942, mas sim do remake de Leonel Vieira que se tornou um mastodonte de bilheteira e um pequeno fenómeno cultural, revisitando o passado cinematográfico lusitano como quem mina ouro.

Em jeito de comparação, foi ontem anunciado que As 1001 Noites (mais concretamente o segundo volume da saga) é a aposta nacional para as nomeações dos Oscars 2016, uma surpresa alegre que não o devia ser. Não obstante ser um dos melhores filmes portugueses da última década, é também um dos melhores a agraciar as salas de cinema este ano, ponto. Mas durante a sua primeira semana de estreia ficou aquém do top 10 do box office, resignando-se ao 11º lugar com cerca de 32 mil euros face aos 340 mil de O Pátio das Cantigas, já na sua quinta semana de exibição.

Fico feliz pelo sucesso deste filme, ainda que invejoso por As 1001 Noites não ter atingido números semelhantes (ou sequer lá perto). A minha inveja vem da necessidade de uma harmonia, harmonia essa que não existe entre estas duas fações da sétima arte, aqui em Portugal.

Na reportagem ao Público, Leonel Vieira fala em educar o povo português no que toca ao cinema, aquiescendo a existência de uma vertente “mais intimista”, enquanto que transparece uma indiferença para com os métodos de Luís Urbano no que toca à produção nacional de filmes. Acho que o seu intuito é nobre, o de colocar o povo português a ver cinema português (sem dúvida o que aconteceu com O Pátio das Cantigas), mas é um ideal que cai em falso não só porque o seu filme mais se parece com televisão em tela grande do que com outra coisa.

Eu gosto de cinema “comercial”, do bom cinema comercial, como Capitão Falcão, também com Gonçalo Waddington. Não é uma necessidade, é um bem que devíamos ter em consideração. E no fim, se o meio milhão de portugueses que contribuiu para o sucesso de O Pátio das Cantigas achou o seu dinheiro bem gasto, quem sou eu para contrariar? Agora, também sou um pouco fidalgo, e acho que a cultura não devia ser tratada como uma iguaria rara nestas terras lusas. A cultura, essa sim, é uma necessidade, e não é este remake que a traz.

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Respondendo à questão colocada a Waddington (**) durante o Festival Literário: não acho essencial agradar a toda a gente para se ser bem sucedido na escrita, no cinema, onde quer que seja; mas é preciso agradar a alguém. Não há arte sem público.

No que toca a filmes como As 1001 Noites (um símbolo autêntico de uma nação em processo de desintegração, com uma importância social à parte da importância lúdica), não se pode estar à espera que uma audiência enganada com o país (que reclama com a contribuição para o ICA, ao mesmo tempo que exige um maior investimento na cultura deste governo sem interesse) vá afluir às salas para assistir às deambulações experimentais de Miguel Gomes.

Mas devia.

(*) Devo referir que o ator participa no segundo volume de As 1001 NoitesDurante a conversa em Ovar, Waddington evitou nomear O Pátio das Cantigas, chegando até a confundi-lo com O Filme da Treta (também produzido por Leonel Vieira). O Pátio das Cantigas não é O Filme da Treta, mas é um filme da treta, ainda que um filme da treta popular e bem sucedido.

(**) Já agora, porque é que o Gonçalo não é uma superstar nacional, à laia de Brad Pitt português? O gajo é inteligente, bem parecido e cheio de humor. É também um ator dedicado; considero Capitão Falcão um ponto alto da minha vida como espetador de cinema. Porque é que ele ainda não está farto de ser capa de revista?

2 responses to “Gonçalo Waddington e O Filme da Treta

  1. Ainda não vi o Capitão Falcão e até tenho vergonha, porque cheguei a fotografar gravações para um artigo do Rui Alves de Sousa no Espalha-Factos. Tenho de ir tratar do assunto urgentemente!

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