Predestinado e o Ovo ou a Galinha?

Esta semana estreou o remake do clássico O Pátio das Cantigas (1942), e apesar de ser sempre muito giro desalapar o rabiosque do sofá para apoiar o cinema comercial português, mesmo quando este consiste apenas de comédias ultrapassadas e adaptações aptas ainda que desnecessárias, estreou também nas salas nacionais Predestinado, um filme que funde os géneros noir e de ficção-científica com estilo para dar e vender.

Predestinado conta-nos a história de um Agente Temporal (Ethan Hawke) enviado numa série de intrincadas viagens no tempo para prevenir futuros assassinos de cometerem os seus crimes. Agora na sua última missão, o Agente tem que travar o criminoso que o tem eludido ao longo dos anos para evitar um devastador ataque em que milhares de vidas vão ser perdidas.

O que a sinopse não nos conta é que a ação futurística é quase inexistente, e embora os irmãos Michael e Peter Spierig, os realizadores, imbuam as transições temporais com estilosos traços artísticos, a narrativa funciona mais como um mistério cerebral de família do que uma tresloucada aventura contra o crime.

Mas porquê?, perguntam vocês.

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Ora, porque, no filme, o Agente Temporal encontra um Homem (Sarah Snook) no bar onde trabalha, que escreve artigos românticos sob o pseudónimo de The Unmarried Woman. Os dois conversam, sentam-se numa mesa, abrem umas garrafas alcoólicas, e conversam outra vez. E conversam.

Numa cena que dura metade do filme, repleta de vistosos flashbacks, os dois homens contam a história das suas vidas. O passado de ambos está repleto de torções narrativos, sonhos perdidos, e pormenores elegantes de ficção-científica que não passam disso: pormenores. O guião dos irmãos Spierig é admirável, e apesar de tornar a propulsão dramática inexistente, esta conversa infindável é tudo menos aborrecida.

Predestinado é uma adaptação do conto All You Zombies, escrito num único dia por Robert Heinlein. Publicada em 1959, a curta história tem exaurido as mais sólidas mentes com os paradoxos non-stop que atira à cara dos leitores. É uma autêntica busca pela resposta à grande questão: quem veio primeiro, o ovo ou a galinha? O filme continua essa tradição, injetando numa trama de viagens temporais temáticas como transexualidade, incesto e confrontos metafísicos que derrubam a fábrica do tempo com a violência de uma marreta.

No conto de Heinlein, o impacto dos plot twists é exacerbado graças à curta duração da história, impressionando o leitor com a inteligência das revelações e enfatizando a motivação e evolução das personagens. Estendido para hora e meia, porém, a economia da narrativa desaparece, e a tensão que a luta contra o tempo traz (milhares de pessoas podem morrer!!) é substituída pela já mencionada conversa que dura uma hora.

O filme é pitoresco e teatral: pede emprestado algumas sequências psicadélicas ao tio Kubrick e vai buscar os seus maneirismos noir ao cinema clássico de 1950, que o coloram com uma energia fenomenal. Esta é infelizmente desperdiçada numa aventura desnecessariamente complexa e expansiva, que depende do desempenho dos seus dois atores principais para aguentar os 97 minutos.

Ethan Hawke é invariavelmente excelente, contribuindo com a sua veia particular de pathos que torna o Agente Temporal num ser trágico para emocionar o espetador. Snook, no entanto, come Hawke ao pequeno-almoço. A atriz de Jessabelle (2014) devora cada palavra estranha do guião com excepcional alento, e revigora os paradoxais extremos da sua personagem com uma imponente determinação que chega a chocar a audiência. O back and forth entre estes dois atores é o ponto alto do filme.

Infelizmente isso diz muito sobre o enredo em questão: quer ser demasiado inteligente para o seu próprio bem. Confesso que posso estar a ser uma putinha exigente, mas Predestinado perde a simplicidade perspicaz do conto original, encharcando-o com cenas confusas e arrastando outras sem necessidade. O choque de géneros cinemáticos funciona a um nível formal, mas perde-se ao tentar contribuir para o impacto emocional da história.

E o pior é que a questão continua a marretar-nos o cérebro. O que é que veio primeiro, o ovo, ou a galinha?

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