Os bons sons d’O Agente da U.N.C.L.E.

A estética de videoclip de música confere a O Agente da U.N.C.L.E.pizzaz necessário para se separar da inundação contemporânea de filmes de espionagem, desde Kingsman em Março até o mais recente Missão:Impossível há umas semanas atrás. Não há pomposas sequências ou momentos de ação, apenas cenas com explosões acompanhadas da escolha musical perfeita, ainda que com o estilo particular de Guy Ritchie a colorir os cantos.

Em U.N.C.L.E., o agente da CIA Napoleon Solo (Henry Cavill) e o espião da KGB Illya Kuryakin (Armie Hammer) participam numa missão conjunta contra uma misteriosa organização criminal, que raptou o pai de Gaby (Alicia Vikander) para proliferar a criação de armas nucleares.

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Não há nada de original para ver aqui: a dupla homoerótica (com a dinâmica clássica de uma comédia buddy-cop) que se estabelece entre Solo e Kuryakin, já foi ordenhada até ao osso por Guy Ritchie na sua duologia Sherlock Holmes. Para piorar as coisas, o carisma de Cavill e Hammer não se equipara ao star-power de Robert Downey Jr. e Jude Law, dois atores de alta classe que sabem caminhar a ténue linha entre a subtileza e a superficialidade enérgica que caracteriza as melhores obras do realizador.

Apesar disso, os atores de U.N.C.L.E. são competentes, tendo eu um carinho especial por Alicia Vikander como Gaby. Aqui, dá um 180º do seu papel em Ex-Machina: não mais presa atrás de vidros translúcidos, a atriz trauteia as suas pernas desnudas com requinte, envergando os mais coloridos vestidos de época com a elegância proporcional ao seu charme quase juvenil. Vikander rouba todas as cenas em que aparece, de tal modo que tudo o que ocorre sem ela em tela é quase como um interregno enfadonho até voltar a aparecer.

Ainda relativamente aos atores, Hugh Grant e Jared Harris surgem esporadicamente para desfiarem o enredo do nó que ata sob si mesmo com infindáveis diálogos expositivos, verborreia de argumentista para explicar os twists desta aventura pelo mundo da espionagem. Não resulta, mas ainda bem que temos atores como Grant e Harris para nos explicarem os defeitos do guião.

Por outro lado, aquilo que aborrece na escrita é transformado pela solidez visual de Guy Ritchie. O cineasta tem a lustrosa habilidade de tornar uma cena banal numa cena brutal, substituindo um ocasional tiroteio à beira mar por um delicado lanche ao som de questa musica stasera, com as explosões e a violência no background de noite estrelada. São estas belas experiências na montagem que elevam a ordinária história ao grandioso, e embora seja tudo muito transitório e leve de substância, não deixa de embalar o espetador com mestria.

De facto, a soundtrack é a verdadeira revelação do filme, pois não se limita a acompanhar as cenas com desinteresse, à laia de uma qualquer música de centro comercial. Este ambiente sonoro serve a era temporal dos anos ’60 da mesma forma que a cenografia excêntrica de cores e ostentosos sofás e cadeirões; não há um único momento em que não respiremos a formosa realidade exagerada de U.N.C.L.E.

Portanto, é pena a narrativa pecar pela trivialidade das personagens, com um clímax desproporcional ao seu desenvolvimento emocional, e vilões pontuais que não suportam o dramatismo dos plot twists com coerência. Os cenários são belos, a ação é interessante e a escolha musical acaba por estabelecer um apelativo contraste com as memórias desbotadas da guerra fria, mas não chega para criar algo verdadeiramente memorável.

Enfim, O Agente da U.N.CL.E. é outra aposta razoável de um resignado Guy Ritchie.

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