Guitarras ao Alto e a alquimia portuguesa

A certa altura no documentário de viagem/musical Guitarras ao Alto (*), numa das conversas de gastronomia à mesa de um restaurante regional do Alentejo, Tó Trips (Dead Combo) fala da alquimia e do processo criativo. É um momento elucidante da filosofia deste músico português que vê o seu trabalho como singular e particular. Constrói algo com um certo número de elementos (as guitarras, as cordas) que outras pessoas não conseguiriam replicar nas mesmas condições.

Mas Tó Trips vai mais longe: Portugal é uma nação de alquimistas. Músicos, cozinheiros, e artistas em todos os cantos e recantos. A gastronomia e a música em particular fundem-se em Guitarras ao Alto, demonstrando uma dicotomia íntima entre duas dimensões do ser português que caracterizam a região alentejana.

(*) Que passou este domingo dia 14 às 00:25 na RTP2. O canal é porreiro, pena é ter que relegar este tipo de programas para horas ingratas que, por um lado, garantem os fãs acérrimos mas alienam os restantes por simples logística.

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A portugalidade primordial que carrega o instinto criativo destes artistas torna-se numa força inquietante: observamos o processo ad hoc destes dois músicos como uma mosca numa parede. Filho da Mãe e Tó Trips vibram no palco, um a balançar-se na cadeira como um feto abatido, outro suando proficuamente o raspar agreste da sua guitarra. Não falo em tom derrogatório; são duas atitudes sentidas e emocionais num documentário que as tenta reconciliar com a situação de um país que esqueceu as suas origens e tradições.

Os interregnos em restaurantes e de bastidores são os pontos mais bem conseguidos desde filme com veia de documentário epistolário. O formalismo descontraído da câmara de Daniel Mota transporta-nos para o ecrã através de uma postura trémula que salta ordeiramente de local para local. A montagem é quase hiperativa na maneira como sincroniza as músicas dos dois artistas e os planos close-up e de pormenor do palco. Guitarras ao Alto tem simplesmente o tecnicismo suficiente para levar a cabo aquilo a que se propõe contar.

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No final, somos expostos a um retrato de dois músicos em consonância na sua divergência formal. Estabelecem um compromisso sério à integridade emocional da sua obra: os concertos são íntimos e sublimes, as notas incisivas e poéticas. O estilo quase free form do punk sente-se nas composições clássicas de guitarra; é impossível desarticular a tradição musical portuguesa das músicas de Filho da Mãe e Tó Trips.

Se tudo em Portugal fosse como a música.

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