Chappie e a inteligência superficial

Neill Blomkamp não sabe para onde se virar. Depois de um debut que deixou queixos caídos e salivantes imediatamente à espera de uma sequela que nunca veio (District 9), parece ter perdido o pózinho que o tornou momentaneamente especial. Uma situação alienígena poucas vezes explorada e vista no grande ecrã, com personagens bem delineadas, uma narrativa repleta de ação visceral e temas socio-políticos extremamente pertinentes para a época? O que mais se quer de um filme?

Blomkamp parece ter recebido a mensagem, e então auto-propôs-se a refazer o seu primeiro filme mas com roupa diferente. Elysium optou pelo estilo blockbuster com a super-estrela Matt Damon e os seus músculos bem cosidos a estourar com o literal cenário sem preocupação com a congruência da história. E agora Chappie cai no erro semelhante de reciclar ainda mais District 9 sem a sua força pessoal e consistência temática.

Só o facto das duas personagens principais (que não são nem o Vincent Moore de Hugh Jackman nem o Deon de Dev Patel) serem protagonizadas pelo duo sul-africano de hip-hop Die Antwoord é o suficiente para alarmar os mais preocupados com uma boa experiência fílmica. Apesar de ser perceptível a escolha de actores de Blomkamp, não deixa de ser altamente extraviada. Serve como uma metáfora para o filme em si: conseguimos entender aquilo que o filme quer realizar, mas só conseguimos abanar a cabeça ao que, efetivamente, consegue alcançar.

4141Estabelece de início, através de exposição desajeitada em veia de documentário (como, surpresa surpresa, District 9), a suposta exploração da humanidade vs inteligência artificial, e se de facto podemos criar humanidade ou encontrá-la em I.A. manufacturada pelo homem. Passado estes quinze minutos de introdução esquece-se completamente do que se propôs tratar para optar por um filme de gangsters com um robô bebé que não sabe distinguir o bem do mal, ou sabe, quando tal é conveniente para o plot.

No entanto, é de referir que este robô em questão, o dito Chappie, é uma criação sublime. Blomkamp tem olho para os efeitos digitais e criaturas de CGI, modeladas com o orçamento moderado dos seus filmes de forma exímia. Chappie é extremamente humano, nos seus gestos e tics; a prestação vocal de Sharlto Copley é de outro mundo. Se há algo que emociona é o crescimento (ainda que fatigante e malformado) desta inteligência artificial num mundo adverso em que as condições sociais de um governo oprimente empurram as orlas da sociedade a actos criminais.

A trilha sonora de, adivinharam, Die Antwoord, também se coaduna com a localização sul-africana do filme. Os ritmos rap misturam-se bem nas sequências de ação e o comportamento das personagens é igualmente digno das batidas hiperativas do duo (Yolandi e Ninja).

Mas, infelizmente, Chappie perde-se ao tentar aprofundar a sua veia temática inexplorada. Fosse esta uma comédia de ação violenta mais aberta aos elementos exagerados da sua narrativa, com pontuações dramáticas bem colocadas a nível estrutural, merecia um maior respeito e até mérito. Assim, o produto final falha o alvo redondamente.

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