The Walking Dead e o valor das personagens

NOTA: Spoilers, claro.

The Walking Dead está cada vez mais maduro. Após uma temporada de transição entre o gore despropositado, narrativa sem fio condutor e caracterização de personagens com uma pitada de diversificação bem-vinda, a série tem-se reconfigurado num panorama mais prestigiado da ficção de género de TV.

A inclusão de personagens como Abraham, Eugene, Tara e até Rosita e Sasha abriu um novo mundo de conflitos e interações à série. O facto de serem homens e mulheres com uma pré-existência no mundo confere-lhe toda uma nova dinâmica: as inter-relações iniciais do grupo de Abraham eram muito mais opacas do que são agora, permitindo um factor mistério e intrigante para a audiência ao mesmo tempo que o era para o grupo de Rick, conferindo muito mais textura e profundidade às situações dramáticas.

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Mesmo aqueles destinados a morrer como o Bob Stookey davam carisma e leveza a momentos que, anteriormente, seriam um recalcar de terreno misantrópico que estamos fartos de revisitar. Os diálogos tornaram-se de imediato muito mais pensados e bem realizados enquanto, simultaneamente, a ação complexificava-se pois sentíamos mais pelas personagens.

Longe estão as lamentações macbethianas da Lori ou a burrice crónica da Andrea: mulheres com maior nuance assumiram as rédeas da série à medida que Michonne se transformava de espantalho de zombies ambulante em líder autêntica, ou que Maggie ultrapassava em silêncio a dor da perda do seu pai e, posteriormente, irmã. Tanto Lauren Cohan como a Danai Gurira são notáveis nas suas performances, e é fantástico ver um programa como The Walking Dead a dar relevo a personagens femininas e a cenas centradas só nas suas relações, vivências e necessidades.

É de louvar, de facto, este trabalho de caracterização. A última metade da 4ª temporada que, para muitos, foi excruciante no seu passo de caracol glacial, tornou possível o aprofundamento da personalidade de desenhos mal formados como Tyresse, Beth e ajudou a desenvolver a quase caricatura de Daryl em alguém mais focado e delineado. É fácil acreditar e torcer pela sua relação com o novo casal gay de Alexandria, afinal de contas nem no grupo de Rick ele se sentia em casa ou se relacionava seriamente com alguém para além de Carol e Beth. Com esta fora de jogo e a outra preocupada com as políticas de Rick, era necessário arranjar um ombro de apoio, um centro moral para Daryl, alguém com quem ele pudesse ter conversas decentes e interessantes.

63674373tsdPor outro lado, o factor ensemble do elenco cada vez maior tem tomado o seu peso nos últimos episódios. Personagens como o padre Gabriel foram relegados para segundo plano, tornando a sua traição neste último episódio algo monótona e confusa porque a progressão não foi sentida ou sequer mostrada com clareza: sequências estritamente visuais de páginas bíblicas a serem rasgadas são evocadoras de algo, mas o que é esse algo?

Do mesmo modo, a morte de Noah serve para diminuir este número enorme de personagens que tem surgido para facilitar resolução de certos plot points e simultaneamente progredir a narrativa de forma plausível e satisfatória. O problema é que é outra morte vazia, coreografada pela cena inicial em que faz planos para o futuro; um futuro este que é cortado pela raiz como tantos outros em The Walking Dead.

Mas a diversidade do elenco, a qualidade dos actores e o impulso narrativo fresco que Alexandria significa são tudo bons prospectos para os últimos dois episódios desta temporada. A questão de quem morre ou não torna-se secundária ao conflito inerente entre o grupo de Rick que está progressivamente mais vilanesco e antagónico face ao suposto imaculado currículo do grupo de Alexandria.

É algo rejuvenescedor para uma série na sua quinta temporada, e entusiasmante para quem não a descartou por agora como “só mais um programa de zombies”:

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