Crítica: Salve, César! e o cinema é magia

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Os Coen não falham.

Quando falham, é porque querem, e se a crítica geral tem algum problema com Salve, César!, é porque não correspondeu (de todo) às expetativas criadas tanto pelos últimos filmes da mirabolante parelha de realizadores, como pelo extenso elenco, produção, e trailers hilariantes que adivinhavam um regresso à comédia pura e dura de obras como Arizona Júnior (1987) e Destruir Depois de Ler (2008).

Salve, César! não é nada disso. O filme passa-se em Hollywood, em plena era dourada dos anos 50. Edward Mannix (Josh Brolin) é um fixer, neste caso da indústria de entretenimento, que passa os dias a resolver “problemas” (como escândalos sexuais, contratos de atores, egos inchados) da sua produtora Capitol Pictures. Um dia, Baird Whitlock (George Clooney, em modo Coen), é raptado por comunistas que passam a pedir um resgate.

Tudo porreiro até aqui: exceto quando reparamos que esta sinopse para vinte minutos suporta a duração inteira do filme.

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Narrativas condensadas costumam ter bastante sucesso em Hollywood, seja em que era for, e independentemente do público que as avaliam. Salve, César! podia situar-se entre um Magnolia (1999) e um Cães Danados (1992), atirando um pouco de comédia pateta para a mistura. Em vez disso, os Coen esticam a sua premissa para os 100 minutos de filme sem se preocuparem com questões narrativas convencionais como tensão ou clímax, ficando-se pelo desenvolvimento do conjunto de personagens criadas apaixonadamente para Salve, César!.

Não há nada de errado com isso. Já o tinham feito com grande sucesso em Um Homem Sério (2009), talvez o seu filme mais pessoal e de veia mais autoral. Mas enquanto Um Homem Sério bebeu da infância suburbana dos Coen, Salve, César! perde essa particularidade emocional, assemelhando-se mais a uma pseudo homenagem aos primórdios de Hollywood. É, assim, mais “vazio”, mais deambulatório, distanciando a audiência do núcleo temático do filme como um fosso de um castelo. Não nos conseguimos relacionar com aquele elenco de personagens nem com os seus dilemas morais, tanto por se situarem numa era temporal que nos é estranha, como pelos artifícios exagerados criados pelos Coen.

Felizmente, isso não se traduz na prestação dos atores, e se há um lado positivo à falta de propósito do filme, é o de observar as nossas estrelas contemporâneas de Hollywood a respirarem vida em personagens tão off-beat e distintas como estas. Scarlett Johansson, nas duas ou três cenas em que aparece, realiza perfeitamente a impetuosidade de DeeAnna Moran: com um sotaque escaldante, uma atitude enérgica, e um ar de maneater clássica, Johansson mostra porque é uma das atrizes mais versáteis a fazer cinema hoje em dia. O resto do elenco também surpreende sempre que os Coen lhes dão espaço para brilhar: Ralph Fiennes, Tilda Swinton, George Clooney, Channing Tatum (que entre Os Oito Odiados e este filme começa a tornar-se num sério character actor); a lista continua num discorrer impressionante de cenas que são autênticas aulas de representação.

No entanto, a verdadeira estrela de Salve, César! é Josh Brolin. O ator é, talvez, a única personagem do filme que nos permite uma aproximação emocional: o seu embaraço profissional é comum a todos nós, os que não sabemos bem o que queremos fazer da vida, ou sabemos bem demais que nos chegamos a questionar se não podíamos estar a fazer outra coisa qualquer. Todos procuramos algo que nos recompense emocionalmente ao fim do dia, cheques chorudos ao fim do mês que se danem, e Brolin envolve o espetador com a sua interpretação fabulosa de Eddy Mannix.

Por lástima, o filme não recompensa a audiência da mesma forma que o emprego de Mannix o recompensa a ele, decorrendo numa linha superficial de tensão e comédia que nunca transcende o género ou a narrativa em si. A miríade de histórias apresentadas e resolvidas nestes 100 minutos de filme entregavam-se mais facilmente a uma série de televisão, que permitiria um maior desenvolvimento das personagens, algo que os Coen parecem querer aprofundar aqui mas não têm o tempo necessário para tal. Assim, Salve, César! torna-se pouco memorável, e uma das apostas menos impressionantes da dupla de realizadores.

2 stars

2 responses to “Crítica: Salve, César! e o cinema é magia

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