Crítica: Os Oito Odiados é uma provocação

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Nenhum outro filme que vi em sala nos últimos tempos provoca tanto quanto Os Oito Odiados. Desde a misoginia aparente das personagens, que se divertem à brava a espancar a dita assassina Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh, a mostrar que ainda sabe uma coisa ou duas sobre representação) sem grandes justificações para tal, até aos gritantes açoites à autoridade americana em particular; Os Oito Odiados sangra densidade política por todos os orifícios da sua substância fílmica.

Pode-se argumentar que isto não é nada de novo para Tarantino, o audaz esteta da violência que choca os mais conservadores sempre que lança uma novo filme. Django Libertado (2012), a sua anterior obra cinemática, reapropriou-se do característico herói americano, o cowboy, ao torná-lo numa pessoa de cor; mais do que isso, ao torná-lo num escravo. Essa subversão social encontramo-la também em outros filmes passados do realizador: À Prova de Morte (2007) desconstrói o vilão masculino heterossexual ao engrandecer as vítimas femininas no suposto género de slasher, e Sacanas Sem Lei (2009) cospe na idiotice dos poderes ocidentais que permitiram atrocidades como o regime nazi (e as forças criadas para o combater), ao mesmo tempo que sucumbe à tentação de o explodir – literalmente – como celebração do cinema e da sua audiência.

Isto tudo para dizer que, sim, reconhecemos que Tarantino sempre teve o seu quociente de sensibilidade social e política (ou ausência dela). No entanto, nunca o exibiu da forma ruidosa, inesquecível e sem desculpas com que Os Oito Odiados se mostra a um espetador inusitado.

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Não vale a pena delongar na descrição do enredo: John Ruth (Kurt Russell, com o mais glorioso moustache que já vi no ecrã) leva a sua prisioneira Daisy para ser enforcada, mas fica preso numa espécie de choupana/loja com outros criminosos e elementos da autoridade por causa de um extremo nevão.

Ora, para quem está atento aos aspectos técnicos de Os Oito Odiados, esta escolha de localização é logo razão para torcer o nariz. Quer dizer, Tarantino, preponente como é do uso da fita de 70mm (*) para rodar o seu filme, escolhe empregá-la em close-ups das faces dos seus protagonistas? A lógica por detrás desta opção parece estar na forma como o 70mm reúne os atores no mesmo enquadramento. Sendo eles ainda bastantes (sim, passam os 8), Tarantino aproveita estes ajuntamentos para posicionar cuidadosamente cada uma das personagens, consoante o seu interesse para a cena em questão. Por exemplo, Daisy está sempre na orla dos enquadramentos, dissimulada e quieta, o que cria um enorme contraste com a cabra assassina que nos é descrita por John Ruth e as restantes personagens. É uma escolha bizarra, mas resulta.

Por outro lado, Tarantino oferece-nos o que parece ser um western à superfície, até que somos confrontados com cena cómica atrás de cena cómica, ao mesmo tempo que o realizador e argumentista cria uma tensão insuportável entre todos os intervenientes. Enquanto isso, a trilha sonora de Morricone, embora vá buscar um pouco ao western clássico, vive mais do tom de terror que criou (junto com Carpenter) para a obra-prima Veio do Outro Mundo (1982), chegando até a recuperar uma música perdida desse mesmo filme. E, no fim, descobrimos que afinal é tudo um grande mistério à laia de um qualquer jogo de Cluedo. O pastiche de géneros é sublime em Os Oito Odiados.

(*) Um formato mais utilizado em grandes épicos de aventura com colossais paisagens, como Lawrence da Arábia (1962).

Mas não é como se o filme não sofresse de alguns problemas: há uma escolha narrativa aqui e ali (como um flashback demasiado longo) que parece existir mais como panache tarantinesco do que como um desvio prestável para a trama em questão. A própria extravagância no que toca à violência (embora nada de novo relativamente aos filmes de Tarantino) parece não coabitar bem com a maturidade recém-adquirida do realizador, parecendo, à superfície, mais um resquício das suas obras passadas do que algo particular a Os Oito Odiados.

Mesmo assim, o que mais provoca nesta nova pérola de Tarantino é a sua política de raças, e o choque com as autoridades americanas. Walton Goggins e Samuel L. Jackson protagonizam dois oficiais distintos, apesar de não serem extremos opostos. O xerife de Goggins, à primeira vista, é um racista inveterado, sem vontade nenhuma de manter a lei, e o militar de Jackson um herói de guerra sem qualquer mácula no seu currículo. Depressa percebemos que as coisas são bem mais complicadas, e a forma como estas duas personagens se relacionam ao longo das 3 horas de filme são um autêntico espelho da dinâmica racial na América contemporânea.

Confrontos com a polícia, homicídios “inocentes” por parte da autoridade, racismo institucional; tudo pontos abordados com uma maturidade considerável por um artista que até agora estimávamos como tudo menos subtil. Tarantino esfrega o nosso nariz nestes problemas sem os evidenciar em demasia: apesar de tudo, é um filme de Tarantino, e o seu maior propósito é entreter uma sôfrega audiência.

E quão entretida ela fica. Política à parte, Os Oito Odiados é uma comédia de costumes com um mistério no seu coração, que se propõe a nos fazer rir de minuto a minuto, até que dá o 180º característico e nos choca com os litros e litros de gore em catadupa, que devem mais ao género de splatter horror do que ao western. Cinema com C grande, sem medo de ensinar mas com primazia (e gosto) em entreter.

Quem diria que o nosso enfant terrible predilecto viria a tornar-se tão político?

4 stars

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