House of Cards e os Videojogos

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Já todos estamos habituados a que o cinema se sirva de adaptações literárias para nos encher os olhos, e o oposto (as novelizações de filmes) começa a tornar-se cada vez mais popular. Livros referenciam o cinema constantemente, e vice-versa – a televisão faz o mesmo -; a arte contemporânea habita num universo multifacetado de meios saltitantes que cada vez mais se tornam indistinguíveis uns dos outros.

Até o meio artístico mais recente, o dos videojogos, se imiscuiu na conversa como se sempre lá estivesse estado. O primeiro Resident Evil saiu em 1996, e foi adaptado para o cinema uns meros 6 anos depois, em 2002, por Paul W.S. Anderson; a saga ainda este ano tem continuação, tanto em formato de jogo, como de filme. É um exercício engraçado (e interessante), o de estabelecer ligações entre o cinema e as restantes artes, mas principalmente com os videojogos, por estes serem tão recentes e já tão preponderantes no nosso quotidiano.

No entanto, a infindável hemorragia de adaptações para remakes para reboots para adaptações entre outros meios pode cansar e até tornar-se uma parede para a criatividade como a idealizamos, pelo que o mais intrigante é observar como as várias artes se conseguem relacionar umas com as outras sem propriamente se canibalizarem mutuamente. Como, por exemplo, uma série caracterizar as suas personagens através dos videojogos com que elas se divertem.

House of Cards é uma dessas séries, e fá-lo da maneira mais original que já vi até à data.

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No início da série, Frank Underwood, o nosso protagonista, é um auto-denominado sociopata que joga Call of Duty. A primeira cena mostra-o a sufocar um cão moribundo, como se esse acto de suposta misericórdia fosse a coisa mais natural do mundo, pelo que quando aparece posteriormente a distribuir tiros eletrónicos que nem perdigotos num discurso, a sua personalidade está mais que definida para o espetador.

É um truque inteligente que só hoje em dia começa a ser aproveitado pelos mais jovens contadores de histórias. Esta manha torna muito mais pessoal a ligação da audiência com a série em questão, visto apropriar-se de um dos meios mais populares de entretenimento para transmitir os motivos e simbolismos narrativos ao espetador, sem recorrer a metáforas académicas que muitas vezes nem nos percebemos se são intencionais, ou não.

Ao longo da série, Frank Underwood sobe na escada política, transformando-se num autêntico psicopata que chega a cometer os actos mais hediondos para chegar à Sala Oval. Já não quer jogar Call of Duty; agora prefere God of War. O piscar de olhos por parte dos argumentistas é óbvio, e embora a uns tal possa soar a exibicionismo vazio, a mim coça-me os centros de prazer e de conhecimento em igual medida. Underwood, sentindo-se um deus no meio de homens, joga God of War sem qualquer preocupação no mundo. É um pormenor macabro, cínico; como a própria série que lhe dá vida.

Mais tarde, Underwood entrega-se de corpo e alma a jogos indie como Monument Valley. Esta mudança simboliza a alteração mais drástica na personalidade do político desde que a série começou, e dá azo a uns desvios narrativos que nunca pensámos assistir nos seus primórdios. Em Monument Valley, Underwood não tem ninguém para matar, ninguém em quem mandar: o jogo é mais um puzzle intelectual do que a fantasia de um adolescente hormonal. Depois, vêmo-lo a jogar The Stanley Parable, que reflete acerca de temas como o livre-arbítrio e outras noções abstratas particulares a Underwood. O político é um apaixonado pela dita 10ª arte, e os seus gostos mudam consoante o grau de sociopatia em que se encontra.

Para quem vê a série, não é complicado perceber porquê.

House of Cards está agora disponível no Netflix português.

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