Zack Snyder e Watchmen (2009)

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Watchmen não é tão mau quanto dizem ser. O seu maior problema é deter a mentalidade de um adolescente hormonal, que pensa que a sobre-sexualização das suas personagens (principalmente das femininas) e a ultra-violência dos seus confrontos (principalmente entre machões) é símbolo de maturidade.

Surpresa, surpresa: não é. Na novela gráfica original (cunhada pelo mestre Alan Moore e ilustrada por Dave Gibbons), Watchmen é uma autêntica desconstrução do superherói clássico, inferindo de certa forma que muito do que guia o desejo de proteger a humanidade não passa de um ato egoísta que canaliza os piores instintos do Homem. Podemos ver isso na versão de Snyder (Jeffrey Dean Morgan é delicioso como o misógino e violento “herói” The Comedian), mas nunca com a nuance que a escrita de Moore conferiu às personagens na página.

No entanto, se for possível esquecer o impacto temático da obra original face ao vácuo emocional desta adaptação, Watchmen é uma épica aventura noir sem par. As três horas de filme podem parecer longas à primeira vista, mas Snyder consegue imbuir cada cena com o seu estilo particular, mesmo quando se limita a copiar os enquadramentos de raíz da banda desenhada. A cena de pancadaria inicial, por exemplo, é dos combates mais selvagens já postos no cinema: tem uma coreografia fantástica, mas nunca roça na flexibilidade sobrehumana que vimos na trilogia Matrix, tudo graças ao olho hyper-estilizado de Zack Snyder.

Watchmen flui com um ritmo muito natural, e embora em algumas versões do filme a coisa acabe por se arrastar mais um pouco (como na Ultimate Cut de 215 minutos – chiça penico), nunca se torna demasiado aborrecido para o espetador, embalado que está em toda a selvajaria humana e misantropia embutida no enredo. Cada enquadramento é um regalo para os olhos: desde as cores, aos figurinos vibrantes, até à caracterização dos atores e a forma como se deslocam no plano; Snyder pensou tudo até ao mais ínfimo detalhe no que toca aos aspectos técnicos do filme.

Alguns diriam em demasia, mas para quem aprecia o estilo demarcado de Snyder, assim como o seu gosto por brincar com a forma cinemática, tem em Watchmen uma excelente peça de entretenimento. O filme tenta abordar a tal desconstrução do superherói que Moore concebeu na sua obra original, mas a verdade é que Snyder é demasiado apaixonado pelo próprio mito em si para chegar aos extremos cínicos de Moore que tanto influenciaram a pop culture mundial.

Por isso, Watchmen queda-se pela vertente lúdica do cinema. Felizmente, nas mãos de Snyder, essa vertente nunca pareceu mais apelativa do que aqui.

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