David Cronenberg – 3 Filmes Importantes

Hoje em dia, muita boa gente está acostumada à regurgitação infindável de filmes de terror dos states. Um grupo de amigos chega a uma casa abandonada e vamos contando pelos dedos das mãos quem morre e quem vive, esperando pelo menos um susto a cada cena que se desenrola. É tudo muito PG-13, com um intuito meramente desopilante, sem grande preocupação pelo verdadeiro terror.

Por verdadeiro terror entendo aquele tipo de imagens – de cinema – que se cravam nas nossas mentes durante meses a fio. As noites tornam-se complicadas de passar, e o estômago parece mais sensível sempre que nos lembramos delas. Não há nada como ficar genuinamente impressionado (num misto de aversão positiva) por uma imagem.

E é para isso que temos os filmes do David Cronenberg. O realizador canadiano, já na casa dos 70, tem uma carreira repleta de hits underground do cinema de terror e de ficção científica, e apesar de nos últimos anos se ter afastado desses géneros, vai ser sempre sinónimo do termo body-horror. Todas as suas personagens procuram a transcendência através da mutilação corporal, consciente ou inconscientemente, e é essa conexão metafísica que dá azo ao nojento e ao violento das suas obras.

Deixo-vos, então, com três grandes pérolas do realizador.

1. Scanners (1981)

84584

Não há como escapar às cabeças explosivas de Scanners, talvez o filme responsável por catapultar a carreira de Cronenberg para o culto cinematográfico. Scanners refere-se ao titular grupo de pessoas com poderes telequinéticos, que os permite ler as mentes de outras pessoas assim como rebentá-las numa chuva de sangue e miolos.

O filme explora temas como expiação governamental, entidades secretas e questões de identidade. Quando a humanidade tem a capacidade de unir telepaticamente os seus sistemas nervosos, o que os distingue uns dos outros?

Michael Ironside protagoniza o vilão da história, e apesar do seu tempo de antena reduzido, constrói uma performance memorável, com uma cena de combate telepático bastante aterrorizante.

2. The Fly (1986)

078078

O cinema de Cronenberg é obcecado com a mortalidade humana, com o receio de desaparecer deste mundo sem nele deixar uma marca. Este medo é explorado através da decadência corporal, da degradação da anatomia humana de formas quase sempre horripilantes. Cronenberg assemelha a destruição monstruosa das suas personagens ao suplício real dos cancros e tumores que assolam o ser Humano.

Em The Fly, Seth Brundle (Jeff Goldblum) funde-se acidentalmente com uma mosca, numa tentativa excêntrica de criar um sistema de teletransportação. À medida que descobre novas habilidades, o seu corpo e a sua mente vão-se deteriorando até não restar nada mais do que o seu instinto animal primitivo.

Assim, a vontade de transcendência humana é suplantada pela sua mortalidade; um prospecto absolutamente niilista por parte de Cronenberg que tornou The Fly num dos seus melhores filmes, e numa autêntica obra-prima do cinema mundial. Tentem ver este de jejum, ou arrisquem-se a vómitos violentos.

3. Eastern Promises (2007)

85859595

Cronenberg costuma dizer que todos nós que vamos ao cinema trazemos para os filmes que vemos a nossa história literária, cultural, religiosa e, principalmente, a nossa história sexual. O realizador não pretende manipular todas estas variáveis com as suas narrativas, mas sim despoletar um maior entendimento acerca delas.

Nunca tal é mais perceptível do que em Eastern Promises, uma das mais recentes apostas do realizador no género do crime neo-noir. Viggo Mortensen protagoniza um gangster da vory v zakone, a máfia russa, subindo na hierarquia da organização a todo custo, até da sua própria masculinidade.

Histórias de gangster são quase sempre um depósito da testosterona exacerbada que tanto caracteriza o cinema de cariz masculino. Cronenberg utiliza isso a seu proveito, subvertendo a virilidade das personagens para uma homossexualidade reprimida que acompanha o Nikolai de Mortensen desde o início do seu percurso na vory v zakone.

A cena decisiva em filmes noir costuma estar reservada para grandes perseguições de arma em punho ou para tiroteios mortais e explosivos. Tal não se verifica em Eastern Promises: as pistolas são substituídas por penetrantes facas, e os compridos casacões retirados para dar a vez a pele nua e brutalmente sexual.

O Homem, acima de tudo, é um animal, dizem-nos os filmes de David Cronenberg. Nunca se esqueçam disso.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s