The Walking Dead vira arthouse

Estava à espera de ação zombie, de crânios esburacados e tripas pendentes, talvez até um dos nossos heróis a esticar o pernil no final do episódio. Sei lá, se calhar até um membro ou outro decepado, como a sempre ameaçada mão de Rick. Mas não esperava flashbacks a preto e branco.

O que é isto, um filme de auteur francês?

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Infelizmente, não é.

No final, o uso do preto & branco não foi nada mais do que um recurso estilístico para distanciar temporalmente as cenas do passado das do presente; algo um pouco desnecessário nesta era em que a cultura visual do espetador já está habituada a quebras não-lineares do tempo. Mesmo assim, foi um artifício engraçado que imergiu a audiência num novo capítulo da interminável saga de The Walking Dead.

O episódio em si foi bastante anti-climático: passamos uma hora inteira a ouvir falar de um plano posto em prática logo nos primeiros minutos, e que acaba por resultar num não-fim frustrante com a promessa de ser concluído na próxima semana.

Porém, há que dar crédito à premissa. Nunca vimos uma horda de zombies com esta dimensão, e o plano de Rick, por mais desnecessariamente opaco que pareça, demonstra um à vontade sem precedentes naquele mundo pós-apocalíptico (*). É refrescante ver as nossas personagens a agir de forma inteligente e coerente com a sua experiência, e a discrepância em relação aos habitantes de Alexandria torna as coisas muito mais interessantes.

(*) Um mundo pós-apocalíptico que, aos poucos e poucos, caminha na direção inevitável da civilização. Até agora não há indícios de que esta série vá alguma vez acabar, mas com a ameaça zombie cada vez menos interessante, que outro rumo podem as nossas personagens tomar? Acho que era uma excelente ideia começar a explorar essa linha temática enquanto a audiência não está farta do programa. Imaginem só: Deadwood com zombies. Awesome.

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No entanto, o que me cativou mais ao longo desta primeira hora foi o percurso dramático de Rick Grimes, o nosso anti-herói predileto. Este episódio desenvolveu-se com um inequívoco enfoque em Rick, através das suas interações antagónicas com o resto do elenco (**). Morgan mostra-se reticente com o pragmatismo brutal do seu amigo (ou será?), e Michonne demonstra um certo constrangimento sempre que partilha o ecrã com o seu líder. Todos parecem afetados de algum modo negativo pela presença dominante de Rick.

(**) Inimizades à parte, é tão mas tão bom bom ver o Daryl Dixon em cima de uma mota outra vez. O gajo já não conduzia uma desde, quê, da quarta temporada, quando o Governador rebentou a prisão pelos ares? O cabelo dele continua a crescer que nem erva daninha, exacerbando todo o estilo selvagem exterior do gajo. Mas lá no fundo sabemos que ele é um grande softie, e é por isso que gostamos tanto dele.

Apesar de olharmos para ele como o herói da história, Rick já não é alguém em quem possamos despejar a nossa confiança sem reservas. Andrew Lincoln traz uma energia nervosa para o papel que transforma a personagem numa mistura química instável, como um barril de pólvora pronto a rebentar. Esta ambiguidade pode provar-se substancial se for bem tratada; espero que o seja.

A dura verdade é que ninguém quer, ou tem os colhões para, dizer não a Rick. O que este episódio parece dizer-nos é que tal vai acontecer, ou tem que acontecer, mais cedo do que tarde. A ricktatorship retorna em força, mas será que vai durar muito mais tempo?

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