A marca de Joss Whedon em Os Vingadores

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Joss Whedon é um nome de culto da televisão americana por ter trazido à vida séries como Buffy, Caçadora de Vampiros (1997-2003)Angel (1999-2004) e Firefly (2002). Estes programas de nicho atraíram uma audiência pequena mas fervorosa, que prevalece ainda hoje, através de convenções e dos cantos recônditos do mítico tumblr.

A legião de fãs que segue Whedon desde os seus tempos no pequeno ecrã sabem o que esperar dos seus programas: temáticas como a adolescência e o crescimento emocional dos protagonistas, dinâmicas de grupo pesadas, relações complicadas de amizade e de romance, e um humor apaixonado por todas as coisas pop culture. As suas séries focam-se num extenso elenco de personagens complexas e tridimensionais, sendo das primeiras a incluir personagens femininas com a mesma profundidade emocional que a dos homens.

Mulheres como Buffy (Sarah Michelle Gellar) ou Inara (Morena Baccarin) afirmavam-se num panorama mais masculino do que o que vemos hoje em dia em termos de séries televisivas, e foi esse tipo de escrita progressiva que catapultou Whedon para o favoritismo de culto. O argumentista preocupava-se de igual modo com o adensar das personagens e do plot, sem se esquecer de construir momentos de ação desenfreados que uniam todo o cast com contagiante entusiasmo.

Não é complicado perceber porque é que a Marvel o quis a realizar o primeiro filme dos Vingadores (2012).

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geek cred de Whedon pode ter facilitado as conversas (o realizador já havia escrito alguns comics para o mastodonte de BD), mas foram as suas idiossincrasias peculiares que encerraram o contrato. Ninguém entrega 220 milhões de dólares a um cineasta inexperiente – a única longa-metragem de Whedon, Serenity (2005), falhou no box office -, mas a Marvel tomou um risco, um risco que compensou bastante e que conquistou toda uma geração de novos fãs de superheróis.

Habituado a trabalhar, em termos narrativos, com equipas de personagens extensas e intrincadas, Whedon facilmente adaptou o seu estilo de escrita à dinâmica de grupo e tensão latente dos Vingadores. Mais do que qualquer um dos filmes a solo que o precederam, o filme de Whedon capturou a essência de personagens como o Capitão América e o Hulk de maneira que as suas histórias de 2008 e 2011 não tinham conseguido.

Whedon trouxe também para a ribalta a Black Widow (Scarlett Johansson, sempre com um penteado diferente), tornando-a numa heroína forte e enigmática, algo raramente visto ainda hoje em dia no grande ecrã no que toca a filmes de ação. Apesar de franchises como Resident Evil e Underworld se basearem nas aventuras de protagonistas femininas (Milla Jovovich e Kate Beckinsale, respetivamente), os filmes são mais uma catapulta da sua forma física e beleza do que propriamente do seu carácter psicológico. A exploração emocional dos heróis é o que costuma caracterizar os melhores filmes de ação, coisa rara no que toca a personagens femininas.

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Pelo contrário, Black Widow tem um passado obscuro e age independentemente do que esperam dela; faz as suas próprias decisões e cimenta as suas íntimas relações consoante a sua personalidade. É, de facto, um marco, e tal não tinha acontecido se a Marvel não tivesse contratado um realizador como o Joss Whedon para escrever o guião.

Apesar de não faltarem ao filme grandes momentos de pura ação repletos dos melhores efeitos especiais, a verdade é que Os Vingadores funciona a um nível mais interpessoal e profundo devido à nuance e atenção ao detalhe característico de Whedon. Enquanto Martin Scorsese em Boardwalk Empire acarretou para o pequeno ecrã um sem número de benefícios económicos e técnicos, Whedon provou o seu cunho pessoal na tela grande e selvagem dos blockbusters americanos.

Anos a trabalhar em televisão, com o seu formato serializado e de constante aprofundamento emocional das personagens durante anos a fio permitiram ao realizador lidar com este filme de uma maneira semelhante; afinal de contas constituiu o clímax narrativo dos cinco (!!) filmes que o antecederam.

A verdade é que se a Marvel tivesse optado por alguém mais seguro, talvez mais habituado a trabalhar dentro do sistema de estúdios de Hollywood, o mais provável era não ter atingido o sucesso que o filme de Whedon atingiu, e consequentemente o mega-franchise do universo cinemático teria morrido aí. Tal não aconteceu, e deste modo foi o formato televisivo que reinou pela primeira vez no grande ecrã.

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