Zack Snyder e O Renascer dos Mortos (2004)

6347373A primeira longa-metragem de Zack Snyder é um remake do que muitos consideram o pináculo dos filmes de zombies: Dawn of the Dead (1978) de George A. Romero. Tal bagagem diminui sempre a apreciação do que vem depois, como se fosse possível de algum modo arruinar o legado de uma obra-prima ao refazê-la, ou como se não existisse potencial infinito em recontextualizar algo para um público moderno.

A verdade é que a máquina trituradora de Hollywood não costuma dar espaço para replicar aquilo que tornou as obras originais tão bem sucedidas em primeiro lugar, pelo que é fácil olhar para O Renascer dos Mortos com algum desdém compreensível. Afinal de contas até é realizado pelo Zack Snyder, o epítome de um cineasta comercial, com olho para os visuais mas sem talento para o resto! Este remake estava destinado a falhar.

Mas não falhou. No filme, o apocalipse zombie obriga um bando de mal-ajustados a refugiar-se num centro comercial do midwest americano. Entre eles: uma enfermeira, um polícia, um vendedor de TVs e um casal sarcástico de cobardes, todos com personalidades dispares que entram em choque ao longo da trama.

A relação entre as personagens não é o ponto central de O Renascer dos Mortos (esse seria rebentar cabeças de zombies), mas é importante o suficiente para o engrandecer, ao criar um grau elevado de empatia entre os protagonistas do filme e a audiência. Isto é fulcral numa peça de terror, em que é certo e sabido mais de metade do elenco esticar o pernil antes dos créditos finais. Assim, a eficácia emocional dessas mortes depende bastante da relação entre o espetador e o falecido.

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gore envolvido também conta, é claro, e Snyder entretém bastante neste aspeto. Mas cérebros rebentados e membros decepados só servem até um certo ponto, pelo que é o guião de James Gunn (agora mais conhecido por realizar Guardiões da Galáxia (2014)) a verdadeira estrela do remake. Gunn consegue criar set-pieces intensas de terror, sem se esquecer de desenvolver as personagens para além de caricaturas genéricas. Torna a história extremamente relacionável para o público geral, de um modo que o denso filme original não conseguiu.

Por outro lado, Romero apropriou-se da narrativa de género para realizar uma alegoria social, criticando a apatia dos americanos da década de ’70, subservientes ao consumismo estúpido e negligente. De certa maneira, os verdadeiros zombies do filme de Romero eram os seus protagonistas bastante humanos, e é este ponto temático que torna a obra original num clássico intemporal.

No entanto, os quase 30 anos de existência não foram amigos para Dawn of the Dead, que hoje em dia parece lento e sem rumo, repleto de cenas desprovidas de tensão superficial (que também é necessária) escravas ao subtexto irrepreensível do argumento. Zack Snyder apercebeu-se disto, e construiu o seu filme de uma forma claustrofóbica, com um sentido de progressão narrativa quase imparável. Contemplação dá a vez a sequências de ação visceral, perdendo a nuance de Romero em prol de algo mais palpável e emocional.

Snyder não está preocupado com a perspetiva cínica de Dawn of the Dead, ainda que socialmente consciente dela. Snyder oferece ao espetador a adrenalina do momento, o ribombar acelerado do coração e os thrills de canibais esfomeados. Isso é errado quando não tem interesse; felizmente O Renascer dos Mortos é um filme inteligente no modo como parcela as cenas de ação, e as usa para desenvolver as personagens centrais ao enredo.

Portanto, O Renascer dos Mortos é um remake no sentido mais solto da palavra, uma realidade que certamente não apraz os fãs acérrimos do original. Mas prefiro-o à obra-prima de Romero, não só porque me identifico mais com as personagens, mas porque aprecio a inclinação visual de Snyder mais do que a dissertação cinemática daquele.

Não há subtileza ou sugestão na primeira longa-metragem de Snyder (como se tornaria hábito nos filmes subsequentes), mas o guião de Gunn compensa a superficialidade da realização, ainda que esta seja sólida por si só. O Renascer dos Mortos é um excelente remake, cheio de boas performances, carnificina implacável e uma atmosfera envolvente.

Antes fossem todos assim.

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