O corpo de Megan em Jennifer’s Body

Jennifer’s Body (2009) foi um filme com a terrível infelicidade de estrear no momento errado. O segundo Transformers havia saído um par de meses antes, pelo que o ódio relativo à Megan Fox estava no seu auge. Ela quebrava o coração hormonal de muitos teens, mas todos os outros choravam o seu “acting” indecente. Para piorar a coisa, no meio crítico, a argumentista Diablo Cody era ostracizada dois anos após vencer o Oscar para Juno (2007), relegada para segundo plano pelos seus ideais feministas / “extremistas”.

A percepção do público era a de “oh não, outro filme de adolescentes”, ou “oh não, outro filme de terror”. A crítica destruiu Jennifer’s Body, as audiências rejeitaram Jennifer’s Body. Mas estavam todos enganados.

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O filme é um misto de sátira sexual adolescente à la John Hughes (O Clube (1985)), e gore desproporcionado de foro indie, como um qualquer filme do Neil Marshall (Doomsday (2008)). Esta junção de tons e linhas narrativas confundiu aqueles que esperavam algo mais tradicional, e o argumento extremamente verbal de Diablo Cody alienou aqueles à procura de diálogos “realísticos”.

Ênfase nas aspas porque não há tal coisa como diálogos realísticos no cinema: na sétima arte, tudo é fabricado. Até os quips deliciosos de Quentin Tarantino nascem de uma observação intensificada da realidade, elevada a referências non-stop e a tiradas pop culture que escapam a 90% da população. As personagens de Cody conversam de uma forma semelhante, repleta de vitupérios conjurados pela mente perversa da argumentista.

Tal domínio depravado da língua inglesa nunca passaria despercebido, mas são as performances de Megan Fox, Amanda Seyfried e Adam Brody a exacerbar, pela positiva, a sua proeminência no filme. Fox, em particular, leva ao extremo o seu estilo de representação deadpan, apático. Muitos diriam ser esse o problema da “atriz”, mas em Jennifer’s Body, cada linha de diálogo monocórdica, cada esboço de sorriso e cada ruga de expressão é um gesto calculado por parte de Fox, pelo menos enquanto dirigida pela realizadora Karyn Kusama.

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Porque, apesar do marketing direccionado para rapazes em fase masturbatória, Jennifer’s Body é um filme feito por mulheres, para mulheres. Tanto Cody como Kusama entendem melhor que ninguém a pressão social feminina dos liceus americanos, assim como os imbróglios corporais de uma rapariga adolescente. Sentimos isso com o diálogo, que menciona tampões e menstruação como quem fala de pão ao pequeno almoço, mas também com o tacto visual de Kusama.

Os enquadramentos fogem ao contraste aborrecido mais comum, tomando as rédeas de um mundo exagerado de cores e sensações excessivas – simbólico da percepção magnificada de alguém em plena adolescência. A relação entre Jennifer (Fox) e Needy (Seyfried) pode roçar no padrão ultrapassado de queen bitch / nerdy girl, mas foge a essa denominação redutiva ao recriminar a atitude desinteressada de Jennifer com uma possessão demónica.

Ao contrário do que possa parecer, este “castigo” não é uma forma de punir a postura promiscua de Jennifer. Ambas as protagonistas se envolvem em relações sexuais ao longo do filme, por vezes até uma com a outra, mas essa relação é celebrada sem tabus.

Porém, e como não podia deixar de ser, o corpo de Megan Fox é glorificado com variadíssimas money shots ao longo do filme, quer seja da atriz a emergir nua de um sereno lago, ou dos seus outfits diversos constituídos quase unicamente por justos mini-calções. Este olhar masculino não partilha da intenção perversa de Michael Bay nos filmes Transformers, pelo contrário, serve quase como um empowerment do corpo feminino.

Mas não se deixem enganar por toda esta conversa temática acerca da agenda progressiva de Jennifer’s Body: feminismo à parte, o filme é uma aposta fantástica para uma noite de Halloween em comunhão. Baldes de sangue, vómitos nojentos, carcaças decompostas e beijos lésbicos compõem a maior parte da sua duração, tudo com um intuito de puro entretenimento.

É muito fácil deixar Jennifer’s Body cair no esquecimento só porque não encontrou a sua audiência quando estrou. Mas não permitam que tal aconteça, e corram para ver este criminalmente mal-compreendido, clássico moderno de terror. Quer dizer, tem a Megan Fox nua. Não deixem isso escapar.

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