A magia do formato

Algo que me tem interessado ultimamente é a utilização do aspect ratio (proporção de tela, em português) na construção da linguagem narrativa de um filme. Com a mudança do analógico para o digital e as complexidades que daí advieram, houve uns instantes na mente cinemática coletiva em que o formato parece ter parado de importar, preterindo as capacidades de armazenamento e facilidade de transporte do digital face à qualidade retro do analógico.

No entanto, essa questão parece cada vez colocar-se menos e menos, chegando certos filmes até a adotar o estilo 16:10 televisivo, ou retornando ao 4:3 de outrora. O aspecto mais suculento desta variedade de formatos é o número infindável de maneiras com que se podem fundir com a narrativa e até contribuir para o seu melhor entendimento e aprofundamento.

Nesta série de artigos, exploro a utilização dos aspect ratios em certos filmes emblemáticos da época moderna.

1.37:1 – Meek’s Cutoff (2010)

5

A terceira longa-metragem de Kelly Reichardt é característica na sua escolha do 4:3 não só por ser recente, numa época em que aspect ratios widescreen são os mais populares, mas por ser um western, um género que ganhou muito em particular com a chegada do 16:9 e do anamórfico pela forma como expandia os horizontes belíssimos e os tiroteios infindáveis.

Meek’s Cutoff, por outro lado, reapropria-se do 4:3 para contar uma história contemplativa, da qual o clímax (em que as carruagens da comitiva têm que ser transportadas através de uma depressão perigosa) é fulcral para compreender a escolha do diretor de fotografia Christopher Blauvelt. O aspecto quase quadrado fecha o campo de visão do espectador de forma a tornar o horizonte inacabável quase claustrofóbico, inescapável.

Somos obrigados a sofrer com as personagens na sua procura exasperante por água porque o próprio formato do filme nos impinge o seu suplício. Enquanto o uso de um 16:9 permitiria um escape fácil para os cantos e limites expandidos do ecrã, o 4:3 enclausura-nos no ponto de vista das personagens.

1.85:1 – The Master (2012)

1

Até à data, todos os filmes de Paul Thomas Anderson eram filmados em 2.35:1 pela sua aparência obviamente cinemática, daí a alteração para o 1.85 em The Master ser emblemática. Filmado em 70mm e posteriormente convertido para o 1.85, o filme pede este aspecto pelo look vintage e de shallow focus que o cinematógrafo Mihai Malamare e Paul Thomas queriam dar ao filme.

look de certo modo replica as fotografias das câmaras Pressman que são utilizadas pela personagem principal do filme (Freddie Quell) protagonizada por Joaquin Phoenix, uma exploração quase metafílmica de um filme que analisa estas particularidades do espírito criativo.

A cena em sequência em que Freddie Quell usa a dita câmara para tirar umas quantas fotos de retrato é significativa do uso do formato pela maneira como transporta o espectador para o filme e para a época do pós-guerra americano. É algo autêntico, retro mas não de uma forma gasta e redutível: o 1.85 cria um mundo próprio através do seu look.

2.35:1 – Trilogia do Senhor dos Anéis

24141

Neste caso, é quase auto-explanatório o uso do formato anamórfico para filmar a trilogia seminal de Peter Jackson. A cinematografia de Andrew Lesnie é de retirar a respiração pela beleza das suas imagens; as montanhas e planícies da Nova Zelândia são captadas com um alcance gigantesco.

Repleto de wide-shots e cenários que pedem o uso do 2.40 para projeção em telas grandes de cinema, de forma a impressionar o espectador de uma forma que as televisões caseiras (na altura em 4:3 mas mesmo com o 16:9 de hoje em dia) não impressionariam.

Do mesmo modo, seria complicado mostrar o escopo dos terrenos em conjugação com as personagens em formatos mais apertados; universos de fantasia e filmes épicos pedem este tipo de aspect ratio precisamente pela extensão gigântica dos sets criados propositadamente para o filme ou pelas localizações em que são captados.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s