Shane Black e A Profissional (1996)

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A Profissional é talvez o filme mais inovador que Shane Black escreveu nos anos ’90. É um autêntico prelúdio à saga Jason Bourne que viria a catapultar a espionagem de novo para a ribalta uma década depois, apresentando-nos uma protagonista tão quebrada quanto badass, sem igual no contexto cinemático da época.

Em A Profissional, uma mulher – Samantha Caine (Geena Davis) – que sofre de amnésia, recupera parte das suas memórias após um ataque de um hitman a sua casa. Para descobrir o seu passado, contrata um detetive privado (protagonizado por Samuel L. Jackson, a esquiar na vida dois anos após Pulp Fiction), e arranca numa aventura pelo mundo da espionagem e de obscuras agências governamentais.

Se ficaram entusiasmados só com a sinopse, tirem já o cavalinho da chuva: a execução de A Profissional, realizado pelo bem intencionado mas sem talento Renny Harlin, deixa muito a desejar. Harlin foca-se demasiado no aparato glorioso das suas explosões, mas não possui nenhum do panaché visual que um John McTiernan é capaz de lhes injetar. A narrativa é sacrificada pela ação, e esta acaba por não ser tão espetacular assim.

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É verdade que A Profissional não passa de outro filme baseado num argumento de Shane Black que engoliu a ideia e vivacidade original só para regurgitar um poio mal batido de influências cinemáticas.

No entanto, o produto final não retira nenhum mérito ao guião de Black. E também não podemos subvalorizar a interpretação dos atores principais: apesar de Davis parecer um pouco aparvalhada na incarnação inicial da sua personagem, assim que a matança começa a atriz demonstra uma faceta totalmente diferente, encontrando diferentes texturas na pedra rude que é Samantha Caine. Por outro lado, Samuel L. Jackson é uma delícia do início ao fim, espingardando one-liners para tudo o que é sítio e mostrando ao restante elenco que é possível divertirem-se à brava num filme de ação, sem sacrificar o caráter emocional da sua personagem.

As preocupações temáticas de Shane Black começam a tornar-se mais claras em A Profissional, desde o contexto natalício da narrativa, até à misoginia inerente aos seus vilões hyper-masculinos face a uma protagonista feminina. Não é que Samantha Caine não personifique os clichés ambulantes de uma qualquer prototípica mulher rija (ver: Ripley na saga Alien), mas no fim acaba por os subverter ao representar mais do que essa faceta do sexo feminino. Apesar disso, Black fica aquém da genialidade que o viria a definir no seu próximo filme.

Assim, A Profissional estabelece-se no cânone cinemático como o meio termo da carreira fascinante do “menino de ouro” de Hollywood, outro exemplo da sua originalidade pulpy e progressiva, arruinada pelo próprio sistema e transformada num filme pouco convincente. Os anos ’90 entretanto terminaram, e a aventura de Black pelo sistema também.

E depois chegou Kiss Kiss Bang Bang.

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