Shane Black e O Último Grande Herói (1993)

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A história por detrás de O Último Grande Herói (1993) é muito engraçada.

Dois jovens argumentistas (na altura), Zak Penn e Adam Leff, decidiram escrever um filme de ação a parodiar o estilo de escritores como Shane Black: a comédia buddy-cop entre dois protagonistas de personalidades opostas (aqui, o estóico Slater de Schwarzenegger e o infantil Danny Madigan), o ambiente natalício, o capanga do vilão que é ainda pior que o vilão (Charles Dance, absolutamente aterrorizante) …

Encontramos todos estes elementos no guião original de O Último Grande Herói, que se apresenta como uma sátira aos blockbusters de ação de Hollywood ao transportar Madigan, uma criança, através de um ecrã para o plot de um dos seus filmes favoritos: Jack Slater IV. O problema é que esta versão do guião não satisfez totalmente os executivos da indústria cinematográfica, que a acharam demasiado auto-paródica e vazia (ironicamente), sem originalidade para justificar o investimento monetário que pedia.

Então, chamaram Shane Black.

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Black não foi o único argumentista a rever o guião original de Penn e Leff, mas o seu cunho na história final foi tanto que no fim foi ele a deter os créditos de guionista, relegando Penn e Leff para um crédito de story by (o reverso do que aconteceu com Arma Mortífera 2 (1989)). O Último Grande Herói começou como uma sátira ao trabalho de Black, e acabou como uma obra marcada pela sua voz inequívoca. Haverá maior ironia em Hollywood?

O aspeto onde se sente mais a intervenção de Black é nas sequências de ação permeadas pela comédia cáustica do guionista americano. Todas elas são epicamente heróicas, estabelecendo o Slater de Schwarzenegger como uma máquina de matar com um soft spot por miúdos (onde é que já vimos isto?), mas a verdadeira magia está em como cada uma delas vai aprofundando a personalidade dos dois protagonistas, ao mesmo tempo que desenvolve a sua relação incipiente de pai/filho adotivo. O laço emocional que se forma entre Madigan e Slater é o coração de O Último Grande Herói, e as sequências de ação não se esquecem disso.

A restante comédia também é genial: há um trocadilho incrível com o protagonista de Exterminador Implacável no mundo ficcional de Jack Slater, e quando no clímax final a Morte de Ingmar Bergman começa a percorrer as ruas de Nova Iorque, sabemos que estamos perante algo especial.

No entanto, é Benedict, o vilão de Charles Dance (aka Tywin Lannister em Game of Thrones), a protagonizar os melhores momentos do filme. Black sempre teve – e continua a ter – um jeito especial para escrever lacaios criminosos mais coloridos do que os vilões que defendem, mas Benedict é o melhor deles todos. Características como o olho de vidro (que muda de cena para cena), a swagger desinteressada e uma propensão para a violência aleatória tornam Benedict no vilão mais memorável da carreira de Shane Black, muito graças à interpretação voraz de Dance.

O resto do filme é previsível, e é provavelmente quinze minutos mais comprido do que devia ser (como a maior parte dos filmes de Black, a produção de O Último Herói foi muito atribulada – é dito que as filmagens acabaram na semana de estreia), mas a ação é tão cheia de alegria, e a comédia tão fora do comum e particular àquelas personagens que não podemos deixar de recomendar O Último Grande Herói como um dos melhores filmes escritos por Shane Black.

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